Sabrina Noivas 132 - Resolution: Marriage
 
Uma intriga... Um segredo...Garrett Blackhawk esperava que seu romance com Mary Jane um dia acabasse em casamento. Mas teve de se ausentar temporariamente da cidade, e mal virou as costas ela se casou com outro! Agora, Mary Jane est viva, tem 3 filhas e... Garrett est de volta... querendo explicaes! Mary Jane Kelleher ficou surpresa quando Garrett a acusou de ser responsvel pelo fim do relacionamento. Afinal, no fora ele quem escrevera 1 carta terminando tudo? Mas sua grande surpresa foi saber que Garrett ainda pretendia se casar com ela!

Digitalizao e correo: Nina
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 2002
Publicao original: 1999
Gnero: Romance contemporneo
Estado da Obra: Corrigida


Srie Marriage Ties
Ordem	Ttulo	Ebooks	Data
1	Another Chance for Daddy
	Apr-1998

2	Wedding Bells
Julia 1031 - Sinos De Casamento	Nov-1998

3	Bachelor Cowboy
	Jul-1999

4	Resolution: Marriage
Sabrina Noivas 132 - Laos Do Passado	Dec-1999


   
   

CAPTULO I

De p junto ao telefone na cozinha, Mary Jane Kelleher apertava com tanta fora o aparelho na mo que apresentava os dedos brancos. Gostaria de no ter de dar aquele telefonema. Na verdade, abriria mo de metade da fazenda para evitar o suplcio. As filhas Becca, Shannon e Brittnie a encorajavam a telefonar, at porque no apreciariam o depauperamento da herana.
Apesar do medo e do n na garganta, no tinha escolha. Algum precisava telefonar e, por processo de eliminao... sem mencionar covardia por parte dos vizinhos... fora eleita.
Pela dcima vez, leu o nmero escrito no papel amassado, embora j o soubesse de cor. Respirando fundo, posicionou o fone ao ouvido e teclou os nmeros. Atenderam no segundo toque. Com o corao disparado, sentou-se na banqueta alta para no desabar.
	Bom dia. Obrigada por ligar para o Grupo Blackhawk  atendeu uma voz jovem e ntida.  Meu nome  Kay. Em que posso ajudar?
A eficincia da moa forou Mary Jane a parar de tremer e justificar a chamada.
	Eu gostaria de falar com o sr. Garrett Blackhawk  sussurrou. Conseguiria, convenceu-se. Conseguiria, se permanecesse calma e focada.
	Lamento, o sr. Blackhawk est em uma reunio. Quer deixar recado?
Mary Jane resistiu  vontade de resolver a questo de forma fcil. Deixaria um recado com as informaes necessrias. Garrett no teria de dar retorno. No seria necessrio falar com ele... para felicidade de uma covarde.
	 realmente muito importante  declarou Mary Jane. Quantos dos funcionrios de Garrett saberiam de sua situao familiar?, imaginou.  ... pessoal e confidencial  esclareceu, franzindo o cenho  frase banal. Informou seu nome e telefone e pediu:  Por favor, pea que ele me ligue o mais rpido possvel e...
	Oh, espere um segundo, senhora  interrompeu a moa.  A reunio acabou. Vou ver se o sr. Blackhawk pode atend-la agora. Por favor, aguarde na linha.
A atendente colocou-a na espera e Mary Jane passou a ouvir msica de uma rdio de Albuquerque, onde Garrett morava. Dono de uma fazenda enorme e de outros negcios na maior cidade do Novo Mxico, Garrett era um homem bem-sucedido, o orgulho de sua cidade natal, Tarrant, no Estado vizinho do Colorado, embora a visitasse poucas vezes naqueles vinte e oito anos desde a formatura no ensino mdio. Ele se alistara no Exrcito e lutara no Vietn. Na volta, cursara a faculdade e finalmente abrira seu prprio negcio.
Ela estava feliz por Garrett, contente por ele ter conseguido aquilo em que o pai dele nunca acreditara: que alcanaria o sucesso sem sua ajuda, influncia ou dinheiro.
Mary Jane estivera em Albuquerque vrias vezes ao longo dos anos, mas nunca se encontrara com Garrett. Mesmo agora, no queria. Na verdade, provavelmente no teria de v-lo. Bastava dar o recado e seria o fim de...
	Mary Jane?  clamou uma voz grave atravs da linha telefnica. Houve pausa, e o homem repetiu, num tom permeado de incredulidade.  Mary Jane Sills?
Mary Jane sobressaltou-se, quase deixando cair o telefone.
	...  Kelleher agora, Garrett.
	Sim  apressou-se ele.  Claro, eu sabia.  que estou surpreso com o telefonema...
	Eu sei, Garrett, e lamento ter assustado voc.  Como se procurasse segurana, uma ncora familiar, ela olhou ao redor da cozinha. Garret. Garrett Blackhawk, aps tantos anos!
Tinha os pensamentos mais dispersos do que as bolas de gude que seu neto Jimmy largara no cho da cozinha.
	No me assustou.  s... que estou surpreso.  Ele riu, desdenhoso de si mesmo.  J disse isso, no?
	Sim, eu...  Mary Jane procurou ficar calma.  Garrett, estou telefonando por causa de seu pai.
Ele prendeu a respirao.
	Ora, o que ele fez? Ele a magoou, ou a sua famlia? Porque se ele...
	No, no, nada disso.  Mary Jane enrolou o fio do telefone no dedo.  Ele est muito doente... est muito doente h meses, mas no deixou a sra. Chandliss lhe telefonar.  A verdade era que o velho Augustus Blackhawk ameaara a vida de Ruth Chandliss se ela tentasse chamar Garrett, mas Mary Jane no lhe contaria a respeito... no ainda.  Acho que ele teve um derrame leve, mas no procurou o mdico.
	Quando?  indagou Garrett.
	Em junho passado. Foi quando notamos pela primeira vez uma mudana nele...
	E ningum se incomodou em me telefonar para contar?
	Espere um pouco, Garrett. Todos ns...
	Todos quem?
Mary Jane no esperava aquela rao.
	Todos os vizinhos  especificou, sombria.  Achamos que, se fosse um problema srio, um dos empregados lhe telefonaria para avis-lo, ou que voc viria para casa um dia e verificaria sozinho.
	Casa?  indagou ele.  Tarrant no  minha casa h vinte e oito anos.
Frustrada, Mary Jane massageou as tmporas.
	Entendeu o que eu quis dizer. Oua, Garrett, no sei como anda seu relacionamento com seu pai e, francamente, no me importo. S estou sendo prestativa como vizinha, telefonando para avisar que seu pai est doente e que precisa de voc.  Se no for tarde demais, acrescentou, silenciosamente.
	Meses depois do fato  reclamou Garrett, e Mary Jane irritou-se.
	Assim como uma visita sua parece estar meses defasada  rebateu. Cus. Nem nos sonhos mais selvagens imaginara essa primeira conversa to spera. Ao menos, servia para alguma coisa: a irritao suplantava o nervosismo.
	Eu soube hoje o quanto Ruth Chandliss est preocupada com ele. Ele ameaou despedi-la, ou pior, se ela lhe telefonasse.
	No sei como ela ainda no pediu a conta...  replicou Garrett. Mary Jane imaginava o mesmo mas no comentou.
	O que a faz pensar que foi um derrame?
	Ele est com pssima aparncia, a fala arrastada, o comportamento irregular e...
	Quer dizer, ele est pior e mais intratvel do que o normal  concluiu Garrett, o tom de voz procurava disfarar a contrariedade, sem muito sucesso.
	Sim, temo que sim. Ningum pode fazer nada por ele.
	 minha responsabilidade. Irei para Tarrant em se guida  decidiu ele.  Vou de jatinho.
Mary Jane sentiu a irritao amainar e quase sorriu. Quando tomava uma deciso, Garrett agia rpido.
Ele sempre adorara a velocidade... carros, cavalos, avies. Mary Jane ouvira dizer que ele fora atirador no Vietn, atuando na porta dos helicpteros, cobrindo aes e retiradas. No conseguia imaginar o rapaz que conhecera pendurado na porta do transporte areo... as mos de jogador de basquete empunhando uma metralhadora. Afastou as imagens de horror. Tinha de parar com aquilo. As lembranas s a deixavam mais agitada.
	Algum pode me pegar na pista de pouso de Tarrant? 	indagou Garrett.
	Sim  respondeu Mary Jane, sem pensar.  Posso encontrar...  Quase disse "algum", mas no havia motivo para no ir busc-lo pessoalmente. Era a atitude de boa vizinhana esperada. A atitude adulta.  Estarei l. Diga-me a que horas.  Provavelmente, era imprudncia ir ao encontro dele, mas precisava inteir-lo de alguns fatos sobre o pai antes de encarar o velho turro. Alm disso, ele veria que a garota doce e obediente transformara-se em uma mulher madura, dona de seu prprio negcio.
Garrett ficaria chocado ao ver Gus. Mesmo achando que ele fora negligente com o pai, ela poderia suavizar um pouco o golpe.
	Seria timo, Mary Jane. Eu gostaria muito.  Ele informou o horrio provvel da chegada e, antes de desligar, fez uma pausa. O mau humor e a aspereza dissiparam-se.
 Sei que meu pai foi rude com voc e sua famlia, MarJay, e agradeo que tenha me telefonado.
Ela sentiu o corao disparar com a mudana de atitude. 
	Eu sinto que lhe devia isso, Garrett. Pelos... pelos velhos tempos  sussurrou.
	Oh, MarJay  comeou ele, a voz grave e contida.  Voc no me deve nada.  Ento, despediu-se e desligou.
Mary Jane desligou tambm e atravessou a cozinha, sentando-se numa cadeira. Respirava ofegante e abandonava as mos frouxas no colo. MarJay, Ningum nunca a chamara assim, exceto Garrett... quando tinham dezessete anos e estavam desesperadamente apaixonados um pelo outro. Tratava-se de uma lembrana doce e triste ao mesmo tempo, pois no eram mais as mesmas pessoas. Estavam com quarenta e seis anos e uma vida de experincias os separava agora. Quando se reencontrassem, notariam as mudanas.
Fitou as mos trmulas. No eram mais as mos macias de uma jovem. Estavam calejadas do trabalho na fazenda, com cicatrizes de arame farpado. Levantou-se e se olhou no espelho pendurado na porta dos fundos.
Seus olhos cinza continuavam lmpidos e brilhantes. As feies tinham suavizado com o tempo, ganhara uns cinco quilos com a maternidade, o passar dos anos, o trabalho pesado na fazenda e o aperfeioamento dos dotes culinrios. Os cabelos curtos loiros no apresentavam nenhum fio grisalho, graas a frascos e mais frascos de tintura. As filhas caoavam de tanta vaidade, mas no se importava, sempre cuidara bem dos cabelos e da pele. Considerando as rugui-nhas ao redor dos olhos, no via motivo para denunciar a idade revelando os cabelos grisalhos.
O fato de ter filhas adultas denunciavam sua verdadeira idade.
Reparando na camisa e cala jeans que vestira pela manh, decidiu trocar de roupa. No era por vaidade, assegurou a si mesma, mas porque se sujara ao desatolar um novilho da lama.
Na verdade, tinha tempo para tomar um banho, arrumar os cabelos, aplicar maquiagem e passar a ferro o terninho que Becca lhe dera de aniversrio no ms anterior. No era vaidade, assegurou a si mesma novamente. Era cortesia se apresentar bem ao receber algum no aeroporto, principalmente quando no se queria demonstrar fraqueza. Meramente, observava as regras de boas maneiras que ensinara s filhas. Satisfeita com a lgica, dirigiu-se ao quarto.
Garrett Blackhawk sentou-se e pousou a mo na pilha de tarefas a concluir ou delegar antes de partir para Tarrant, mas no tomou nenhuma providncia.
Mary Jane Sills... Saboreou o nome e s ento corrigiu-se. Mary Jane Kelleher. Sabia que ela enviuvara havia quatro anos. Na verdade, sabia muito a respeito da ex-namorada porque at hoje assinava o principal jornal da pequena cidade do Colorado. Conhecia todos os marcos da vida dela, o nascimento das filhas, as ocasies em que ela e o marido compraram ou venderam propriedades. A morte de Hal.
Na verdade, a nica informao que o peridico nunca dera sobre Mary Jane era o motivo de ela ter se casado com Hal.
Raios. Por que falara com ela daquele jeito? Culpando-a de no o avisar sobre a doena de Gus? No era culpa dela, nem de nenhum vizinho da Fazenda Blackhawk. A culpa era toda dele prprio, por nunca ter se controlado nem por cinco minutos para conversar com o pai. Telefonava todos os meses para a fazenda e perguntava a Ruth como estavam as coisas, mas Gus provavelmente instrura a governanta a no revelar nada sobre seu estado de sade. Devia ter ido pessoalmente. Conhecia o pai.
Ignorando o trabalho sobre a mesa, levantou-se e foi se servir do caf fresco que a secretria Jill mantinha sempre pronto. Com a caneca intitulada "chefo" em letras vermelhas, aproximou-se da janela. O apelido era s brincadeira, pois Jill lhe dissera que, embora ele fosse o chefe mais difcil que ela j tivera, no tinha dificuldade em mant-lo na linha. Com efeito, ele jamais discutia com o dnamo de ar maternal que tomava cuidava de seu escritrio. Na verdade, encarava a mensagem na caneca como um elogio. No se importava em ser difcil, desde que no se revelasse um patife como Gus, seu pai.
Deleitou-se com a viso do ptio central do Edifcio Black-hawk. A fonte lanava gua sob o sol de setembro produzindo vrios pequenos arco-ris. Funcionrios deslocavam-se para l e para c, em passos variados, dependendo da urgncia de seus afazeres e do fato de terem notado ou no a presena do patro  janela.
A construo de trs andares abrigava vrias empresas de seu imprio, interesses agropecurios, incorporaes de imveis e aplicaes financeiras. Uma das paredes da estrutura tinha acabamento em argila e dava para a praa central da cidade em que morava havia mais de vinte anos. Orgulhava-se do que empreendera em Albuquerque, mas ainda s comeara a provar que Gus errara ao apostar que ele no conseguiria nada sem o dinheiro e a influncia do pai.
Conseguira. Era um empresrio rico e bem-sucedido, mas nunca se casara. No tinha famlia. Quando Gus morresse, no haveria ningum alm dele para ficar com seu legado.
Tomou um gole de caf e franziu o cenho, sem saber se era a bebida que estava ruim ou se o amargor derivava de seu prprio arrependimento.
Mary Jane no enriquecera, mas tinha famlia, relacionamentos pessoais que ele no possua.
Sentira um golpe quando Kay lhe informara quem aguardava na linha. Atendera recordando a jovem Mary Jane e ficara atnito ao ouvir a voz feminina madura. A lgica justificava a mudana. Ele tambm devia ter mudado. J atingira a meia-idade, embora Jill lhe assegurasse que ainda no o aparentasse. Caso contrrio, a tirana j o estaria submetendo a dieta e ginstica. Seus cabelos continuavam pretos, com alguns fios brancos nas tmporas. Se tentasse, provavelmente ainda entraria no uniforme do Exrcito, embora seu corpo no fosse mais o do jovem de dezoito anos.
Com um suspiro, deu as costas  janela. Por que passara a pensar em Mary Jane e em sua prpria aparncia somente aps ela telefonar para informar que seu pai estava mal? Um derrame, dissera ela. Talvez mais que um, e nem assim Gus fora ao mdico. Bem, tomaria providncias assim que chegasse a Tarrant. Seria uma tarefa rdua, mas antes tinha de limpar aquela mesa.
O jatinho brilhou sob o sol do entardecer ao realizar um crculo em aproximao ao aeroporto do condado de Tarrant.
Mary Jane admirou a manobra elegante, reparando no falco estilizado preto estampado na cauda da aeronave. Quando o jatinho se inclinou, leu a inscrio "Grupo Black-hawk" na fuselagem e reconheceu Garret no assento do piloto. O homem possua no mnimo um jatinho corporativo! Quanto enriquecera, afinal?
Alisou o palet do terninho, desejando ter passado mais creme hidratante nas mos para suavizar as reas speras. Mas para qu? Todos sabiam que realizava um trabalho braal, e suas mos denunciavam esse fato. Garrett no se abalara at Tarrant para v-la, de qualquer forma, mas por causa do pai. Mesmo assim, aliviava-se por ter os cabelos ajeitados e macios em torno do rosto, enfatizando os olhos mais maquiados do que o usual.
Meneou a cabea, triste, e recostou-se na lateral da caminhonete branca para relaxar, cuidando para no sujar a roupa, entretanto. Claro, podia vestir a parca, mas esta no combinaria com o terninho.
Vaidade, teu nome  Mary Jane!
Deslizando suave, o jatinho pousou na pista simples e taxiou at o barraco onde Red Adkins, o gerente da pista, mantinha os registros das idas e vindas do esparso trfego local.
Dali a pouco, a porta na fuselagem se abriu, uma escada desceu e Garrett surgiu. Ocupando o vo todo, ele roou os cabelos pretos na parte superior da abertura, brigando com uma bolsa de viagem e uma pasta executiva. Deu uma olhada ao redor, avistou Mary Jane e lhe acenou rapidamente antes de tomar os degraus.
Ela o fitava atnita. No recordava que ele fosse to grande. Garrett continuara crescendo aps deixar Tarrant? Analisou sua figura, absorvendo cada detalhe. Definitivamente, tornara-se mais robusto e adquirira passos slidos, sem sinal da leveza do piv do time de basquete da escola.
Claro que no. Que tolice. Garret era um homem agora, no um garoto. Por algum motivo, as lgrimas brotaram nos olhos de Mary Jane. Ela levou algum tempo para perceber que se emocionava, de arrependimento e tristeza. Os dois foram to importantes um ao outro certa poca, mas agora eram quase estranhos.
Foi timo ele seguir primeiro para o escritrio de Red. Ela teria alguns minutos para respirar fundo e se recompor. No previra que sentiria tanta emoo ao rever o amor da adolescncia. Precisava aprender a se controlar, ou lamentaria muito mais do que os anos passados. Garret concluiu as formalidades com a administrao e saiu do escritrio, caminhando determinado pela pista ao encontro de Mary Jane. Estacou diante dela e lhe tomou a mo.
	Ol, Mary Jane  cumprimentou com um sorriso, evocando inmeras lembranas.
Ela sentiu o calor da mo forte e grande o bastante para envolver a dela completamente. As feies dele haviam mudado, apresentando linhas de maturidade, o queixo forte contrastando com as mas do rosto altas e os olhos profundos. Quando ele sorria, ruguinhas sedutoras surgiam nos cantos dos lbios. Os olhos ainda eram azuis, um tom escuro que ela nunca mais vira semelhante.
	Ol, Garrett.  bom v-lo novamente.  Lamentou a saudaro banal, mas ele no pareceu notar.
	E bom v-la novamente tambm, Mary Jane. Faz muito tempo.  Ele parecia examin-la, como ela fizera.
Desconfortvel, Mary Jane desviou o olhar.
	Trouxe s essa bolsa?
Garrett assentiu e instalou a bolsa e a pasta na caamba da caminhonete.
	Tenho certeza de que Gus vai me mandar embora e achei melhor trazer pouca coisa.  Sem delongas, contornou o veculo e a surpreendeu abrindo-lhe a porta do motorista. 
Mary Jane, acostumada a fazer tudo sozinha, divertiu-se ao v-lo estender a mo para ajud-la a subir ao banco.
	Desculpe-me  murmurou, ao se ajeitar atrs do volante. Garrett s estava sendo gentil. Devia aceitar as atenes com mais graa, em vez de se constranger.
Ele sorria de leve, como se soubesse em que ela pensava. Como poderia, se nem ela sabia?
Garrett instalou-se na poltrona ao lado. Mary Jane deu a partida no motor e finalmente relaxou. Saram do estacionamento j descendo o planalto onde ficava a pista de pouso, seguindo em direo da cidade.
Garrett olhou ao redor.
	Sempre que venho aqui, fico espantado em constatar como as coisas no mudam...
	A populao no cresce muito em Tarrant  concordou Mary Jane.  No h muito emprego.
Ele assentiu, e calaram-se. Como a tenso na cabine parecia sugar todo o ar, Mary Jane acionou o ventilador. No imaginava que a distncia entre eles fosse to grande, mas tambm, nem sabia o que esperar. No era nada parecido com as reunies de turma da escola, quando as pessoas corriam a se abraarem. TSem lhe passava pela cabea abraar Garrett. Ficaria sem graa, e duvidava de que ele apreciasse a iniciativa.
	Mary Jane, lamento sobre Hal. Era um bom homem.
Ela o olhou rapidamente.
	Sim, era.
	E um bom marido, imagino.  No era uma pergunta. 
Garrett parecia querer que ela confirmasse sua suposio.
	O melhor. E um timo pai tambm  assegurou.
Garrett estava meio voltado para ela, o ombro apoiado na porta.
	Acho que foi por isso que se casou com ele to rpido. Sabia que ele daria um bom marido e pai.
Mary Jane sobressaltou-se e a caminhonete foi para o centro da pista. Endireitou o volante e olhou rapidamente para Garrett. Ele ergueu o sobrolho, como se perguntasse qual era o problema. Ela voltou a ateno  estrada, agarrando o volante com as mos suadas.
Garrett, por que no discutimos sobre minha famlia em outra hora? Agora, voc precisa saber o que se passa com seu pai. Ruth pode no se sentir confortvel em lhe contar.  uma empregada muito leal.
Garrett olhou-a como se no quisesse deixar de lado o tema, relutante em falar do prprio pai, mas finalmente assentiu.
	Tem razo. Andei pensando no meu pai a viagem toda, mas agora evito o assunto. Diga-me o que est acontecendo.
Aliviada, Mary Jane assentiu e passou a descrever o comportamento estranho de Gus Blackhawk desde junho.
	Ele expulsou vrias pessoas da propriedade, at ameaou-as com uma espingarda. Pode ter tido um derrame, mas, pelo que sabemos, no procurou um mdico.
Garrett assentiu, srio.
	Ele no procuraria, claro. Gus acha que sabe mais do que os mdicos.
	Foi o que Ruth disse.  Mary Jane desacelerou a caminhonete.  Chegamos  anunciou, desnecessariamente, adentrando a porteira da Fazenda Blackhawk. Passara por ali centenas de vezes desde que se mudara para a vizinha Fazenda Running K, mas nunca entrara, cnscia de que no era bem-vinda.
Garrett tornava-se mais tenso. Endireitou-se no banco e olhou ao redor, notando que uma parte da cerca estava quebrada e que o gado invadia a estrada. Mary Jane teve de frear e buzinar, aguardando que os bois vagarosamente sassem da frente. A via de cascalho apresentava capim por toda parte, como se raramente a usassem. Havia outros sinais de negligncia e falta de manuteno. Mary Jane percebia seu espanto. Gus sempre fora perfeccionista.
	Ruth contou que as coisas na casa tambm esto mal  comentou, sentindo que devia alert-lo.  Gus no permite que ela conserte nada, nem que chame algum para cuidar dos reparos.
Do topo da colina, avistaram o pequeno vale no qual se assentava a casa, o celeiro e outros anexos. Era patente a decadncia da fazenda.
	Eu devia ter vindo antes	confessou Garrett.  Mas ele no me queria aqui.
Cheia de compaixo, Mary Jane freou a caminhonete e pousou a mo sobre a dele.
	Lamento que tenha de ser assim.
Ele no respondeu, mas assentiu aps um segundo. Mary Jane retirou a mo e retomou o avano pela estrada.
Diante da sede, a porta se abriu e Gus Blackhawk em pessoa saiu  varanda. Mary Jane o vira recentemente e no se espantou. Mas Garrett prendeu a respirao, surpreso com a aparncia do pai.
Gus trajava roupas rasgadas e sujas, tinha os cabelos compridos e desgrenhados, a barba grisalha descuidada crescendo irregular. Estreitou o olhar e ergueu o queixo ao reconhecer Mary Jane. Trmulo de fria, desceu os degraus da varanda apoiando-se pesadamente no corrimo:
	O que faz aqui? Sabe que no  bem-vinda. Est tentando pegar o que  meu,  isso o que est tentando fazer. Bem, isso no vai acontecer...
Garrett saltou da caminhonete, contornou-a e bloqueou o caminho de Gus.
	Pai! Pare.	
Concentrado em Mary Jane, o velho ignorou o filho, at que Garrett o segurou pelo brao. Ainda tentou se desvencilhar, mas ento voltou os olhos azuis marejados ao filho.
	Pai, Mary Jane me trouxe aqui para ver voc.
Gus esboou um sorriso.
	Garrett... J era hora de voltar para casa.  Olhou irado para a vizinha.  Mas no tinha de vir com ela!
Garrett conteve-se para no discutir.
	No se importe com isso. Vim ver como voc est.
	Como se se importasse!  disparou Gus, desvencilhando o brao. Lanou outro olhar ameaador a Mary Jane.
	E voc, saia da minha propriedade ou eu a processarei!
	Dando meia-volta, subiu os degraus para entrar em casa.
No seria a primeira vez. Mary Jane sentiu-se constrangida e quis rebater, mas achou mais sbio manter-se calada. A raiva que sentia do velho senhor dissipou-se ao ver o desgosto na expresso de Garrett.
	Que foi isso tudo?  indagou ele.  Sei que ele odeia todos os vizinhos, mas por que esse rancor por voc?
	Ele sempre foi assim  comentou ela, vaga.  Desde quando desconfiava de que namorvamos, na escola.
Garrett passou a mo nos cabelos.
	Isso  passado. Por que ele, ou qualquer pessoa, se importaria com isso agora?
Mary Jane sentiu uma pontada no corao, mas conseguiu dar de ombros.
	Ele mantm o ressentimento.
	Isso  ridculo!  Garrett retirou sua bolsa e pasta da caamba da caminhonete.  O que aconteceu entre ns acabou h muito tempo. Com certeza, no importa mais agora.  Lanou-lhe um olhar perturbado.  Obrigado pela carona, Mary Jane. Agradeo por ter me telefonado. Ns nos veremos em breve.  Apressado, subiu  varanda atrs do pai.
Mary Jane respirou fundo, ligou o motor e conduziu o veculo de volta pela estrada. Garrett tinha razo, claro. O que acontecera entre eles no importava mais. Na verdade, ele deixara claro que o relacionamento entre eles acabar vinte e oito anos antes.
Aproximadamente, sete meses antes de ela dar  luz a filha de ambos.

CAPTULO II

Percorrendo toda a varanda da casa, Garrett desejou ter dezoito anos novamente e poder se dependurar nos postes que sustentavam o telhado. Agarrou-se a um deles com fora.
Raios, o velho era teimoso!
Deu meia-volta e caminhou at a outra extremidade da varanda. Passara as duas ltimas horas discutindo com o pai, tentando convenc-lo a procurar um mdico. Gus refutou cada argumento, at o filho gritar nervoso e sair para a varanda. Precisava se acalmar antes de recomear, mas a viso da fazenda s aumentava sua perturbao.
Parado com as mos nos quadris, Garrett apreciou aquela que um dia fora a melhor fazenda de Tarrant. O cenrio parecia tirado das velhas fotografias que seu av tirara ao tomar posse do local, logo aps a Crise de 1929. Totalmente abandonado.
Como o prprio Gus. Garrett franziu o cenho. Era evidente que seu pai estava muito doente. Tinha certeza de que o velho sofrera pelo menos um derrame, como sugerira Mary Jane, e provavelmente apresentava outras complicaes.
Mary Jane... Ainda no a desculpara por ela ter esperado tanto tempo para lhe avisar sobre a condio de Gus, mas entendeu a atitude aps ver o tratamento que o pai lhe dispensara. Os vizinhos no haviam telefonado porque no queriam ser agredidos. Gus nunca se dera bem com ningum. Odiara Hal Kelleher porque o fazendeiro se recusara a lhe vender sua propriedade, anos antes, mas nem isso justificava tanta agressividade contra a viva Mary Jane.
Tinha que admitir que se abalara ao rev-la. No esperara uma moa de dezoito anos ainda, claro, mas tampouco a imaginara aos quarenta e seis. Mary Jane parecia pairar em algum momento entre as duas idades. Loira, bonita, com um toque desajeitado que ele sempre achara atraente. Ela tambm ficara nervosa ao reencontr-lo.
Compreensvel, pois ainda tinham um assunto pendente.
Garrett estreitou o olhar ao analisar as runas da outrora prspera fazenda do pai. Antes de partir de Tarrant, conversaria com Mary Jane, decidiu. Assim que o pai estivesse melhor e pudesse se concentrar em Mary Jane, conseguiria respostas para as perguntas que guardava havia tanto tempo.
	Garrett!
Voltou-se ao alarme de Ruth. A governanta saiu  varanda, estacou ao v-lo e agitou as mos.
	Seu pai... desmaiou na sala.
Garrett levou alguns segundos para reagir e entrar apressado na casa.
	Chame os paramdicos!  gritou, achegando-se ao velho. Gus estava largado no sof, o brao e a mo esquerdos contrados.
Ao endireit-lo, Garret reparou no canto da boca e no olho repuxados. Com a cabea pendente, Gus revirou os olhos, mas ento pareceu ver o filho e reconhec-lo. Comeou a balbuciar. Garrett aproximou-se para entender.
	Fiz... fiz a coisa certa... colocando-a... para correr... Mary Jane Sills... a escria...
Atnito, Garrett fitou o pai. Numa hora dessas, a nica coisa em que o pai podia pensar era em Mary Jane e na discusso acontecida havia tanto tempo sobre ela no ser boa o bastante para o filho de Gus Blackhawk? Horrorizado, Garrett sentiu tristeza e pena ao se inteirar do que ainda era importante para o pobre homem.
	Sabe... eu... tinha razo  murmurou Gus.  Tinha razo.  Fechou os olhos e a respirao ficou mais fraca.
Angustiado, Garrett tomou a mo do pai, um homem to teimoso que as ltimas palavras s poderiam ser uma justificativa para seus atos.
Aps muito andar pela pequena sala de espera daquela ala do hospital, Garrett sentou-se no sof. Incomodado, levantou-se e examinou o mvel. No se adequava a um homem com um metro e oitenta de altura. Na verdade, no imaginava quem poderia se sentir bem naquilo. A fim de no prejudicar as costas, continuou andando, enquanto esperava Frank Kress vir lhe reportar o estado do velho Gus.
Acompanhara o pai at a sala de exames, mas Frank franzira o cenho, deixando claro que no o queria ali. Assim, retirara-se. Precisava pensar, precisava entender o que o pai quisera dizer ao confessar que colocara Mary Jane para correr. Passou a mo no rosto.
Mas Gus no a pusera para correr. Ela se casara com Hal Kelleher e se mudara para a fazenda vizinha. Irritado, vido por anexas mais terras, o velho tentara desacreditar os Kelleher junto aos demais fazendeiros. Garrett no se surpreenderia se soubesse que o pai chegara a roubar gado e derrubar cercas, mas no entendia tanta animosidade contra Hal e Mary Jane. Sentira um qu de amargura na voz do pai ao remoer o triste sentimento.
Em busca de uma distrao, olhou ao redor na sala. Os mveis eram feios, sobras de outros ambientes, como se a decorao do lugar onde familiares aguardavam notcias de seus entes queridos no importasse. A feira era como um aviso s pessoas: "espere pelo pior".
Garrett sabia o que era o pior no caso do pai. Frank lhe diria que Gus estava morrendo e que no havia nada a fazer. No que o velho desejasse a ajuda do filho. Aos oitenta e cinco anos, parecia determinado a morrer  sua maneira, como vivera. Sozinho. A esposa morrera quando o filho tinha cinco anos. Garrett sempre imaginou se a me no se fora simplesmente por no poder atender s expectativas do marido.
Garrett afastou esse pensamento. No queria pensar no passado. J tinha muito com que se preocupar no presente. Solucionara sua relao com o pai ao decidir no ser como ele. Recordando como Gus tratava as pessoas... vizinhos, empregados, conhecidos... agia da maneira oposta. Se tivesse se casado e tido filhos, continuaria com a mesma atitude amigvel.
Sabia que o pai teria sofrido o novo colapso, tivessem discutido ou no. Mesmo assim, sentia-se culpado pelas palavras que haviam trocado. A tenso adicional no ajudara em nada. No queria pensar que era parcialmente responsvel pelo agravamento do estado do velho, embora achasse que sim.
Precisava sair daquela sala miservel.
A caminho da lanchonete, passou pela ala peditrica e deteve-se. Mary Jane saa de um quarto e fechava a porta com cuidado. Ela tambm o viu e estacou.
Havia surpresa e algo mais nos olhos cinza. Seria culpa? Por que ela devia se sentir culpada? Curioso, Garrett avaliou seu semblante e notou o rubor nas faces.
	Oh, ol, Garrett  saudou ela.  O que faz aqui?  Tensa, apertou-lhe o brao.   o seu pai?
Ele confirmou e resumiu os acontecimentos aps a partida dela. Fitou a mo pequena contra sua pele bronzeada. No se lembrava da ltima vez em que uma mulher o tocara para confort-lo. Havia quantos anos Mary Jane o tocara pela ltima vez? Uma vida. Sentiu-se perturbado, apreensivo e aquecido com o gesto.
Ao saber da discusso que ele tivera com o pai e ver a frustrao em seu rosto, Mary Jane concluiu que ele se culpava pelo colapso de Gus. Gostaria de ajudar, mas os problemas entre pai e filho comearam com o nascimento de Garrett e provavelmente nunca se resolveriam.
	E voc?  indagou ele, indicando a porta que ela acabar de fechar.  Faz trabalho voluntrio ou algo assim?
	Antes fosse  retrucou ela, pensando nas responsabilidades familiares.  Mas no. Meu neto est aqui.
Garrett reagiu atnito.
	Seu neto?
Mary Jane riu.
	No fique to surpreso. Eu tenho dois netos. Netos-enteados, na verdade. Filhos de Becca. Jimmy caiu da rvore e quebrou o brao esta tarde. Estou aqui com ele, enquanto Becca e o marido, Clay, foram tomar um lanche. Como ele dormiu, resolvi andar pelo corredor para esticar as pernas.
	 incrvel voc j ter netos.  Ele a fitou detidamente. 	 incrvel j sermos velhos o bastante.  Deu de ombros e sorriu sem jeito.  Claro, eu no tenho filhos, nem netos.
Ela se compadeceu ante a solido impressa na voz. Sentindo-se culpada, baixou o olhar. Ento, ouviram passos no corredor. Eram Clay e Becca de volta. Becca e as irms sempre tiveram curiosidade sobre Garrett, queriam saber se ele era como Gus... agora, finalmente, descobririam. Mary Jane sentiu um frio no estmago, apreensiva... eles perceberiam a semelhana fsica entre Garrett e Shannon?
	Jimmy deu trabalho?  indagou Becca  me.  Ele no tem pacincia...
Mary Jane meneou a cabea.
	Ele est bem. Dormiu. Como no estou acostumada a ficar sentada, resolvi esticar as pernas.
Becca ficou mais tranquila e voltou a ateno a Garrett. Mary Jane observou cautelosa, mas no viu nenhum sinal de estranhamento em Becca ou Clay. Aliviada, fez as apresentaes. Eles desejaram melhoras a Gus e ela notou um brilho irnico no olhar &e Garrett. Aps a agresso verbal de Gus contra ela naquela mesma tarde, ele devia cogitar se ainda se mostrariam to compassivos, se soubessem. Garrett agradeceu e comentou que ainda esperava o diagnstico do dr. Kress.
	Eu ia tomar um caf  declarou, meio se despedindo. 	Estou precisando.
Clay franziu o cenho.
	Se tomar o caf da lanchonete aqui, vai demorar para digeri-lo.  Voltou-se para Mary Jane.  Ns cuidaremos de Jimmy agora. Becca vai pegar Christina com Shannon, depois. Por que no vai tomar um lanche com Garrett?
	Oh, bem, eu no...  Mary Jane parou de gaguejar e fitou as trs pessoas que a encaravam. O que podia dizer de razovel?	
	No me diga que meu pai foi to rude com voc ao longo dos anos a ponto de se recusar a tomar um lanche comigo?  forou Garrett.
Becca e Clay a fitavam como se no acreditassem que aquele fosse o motivo de tanta relutncia. No era, mas ela no lhes diria a verdade: que no queria ficar na companhia de Garrett porque lamentava e sentia-se culpada pelo passado.
	Claro que no  afirmou, juntando as mos suadas. Desejou saber mascarar melhor os sentimentos.  Ser timo comer alguma coisa. Vou pegar minha bolsa.  Entrou no quarto de Jimmy.
Becca e Clay despediram-se de Garrett e adentraram o cmodo.
	Me? H algo errado?  indagou Becca, encostando a porta. Deu uma olhada no filho adormecido e baixou a voz.  No se preocupe, Jimmy vai ficar bem.
Mary Jane pegou a bolsa pendurada numa cadeira.
	Claro que sim. E s que estou um pouco cansada. Foi um dia atarefado, desatolando bezerros da lama, um neto quebrando o brao...
Becca e Clay trocaram olhares, como Mary Jane e Hal costumavam fazer, e que significava: "Conversaremos sobre isso mais tarde. A ss".
	Se  o que diz  respondeu Becca.  Obrigada por ficar com Jimmy.
Sorrindo, Mary Jane voltou-se para a porta e respirou fundo. s vezes, era terrvel ter a enteada como melhor amiga. No havia segredos entre ela e Becca. Tendo em mente ser mais cuidadosa dali para a frente, reencontrou-se com Garrett no corredor.
Recostado na parede, ele mantinha os braos cruzados e analisava o piso de cermica bege e marrom. Com os ps cruzados nos tornozelos, tinha expresso concentrada e cansada. Mary Jane deteve-se. Quantas vezes o vira exatamente naquela posio? Com o olhar intenso e solene, a expresso preocupada? Dezenas de vezes. Era perturbador dar-se conta de que se lembrava de tudo sobre Garrett.
Apiedou-se dele. Sabia como era ficar naqueles corredores, aguardando notcias de. entes queridos. Devia ser pior ainda esperar pelo diagnstico de algum como Gus, que fazia de tudo para no ser amado. Sem dvida, Garrett agora tentava identificar os sentimentos que nutria pelo pai.
As enfermeiras sabem como encontr-lo em caso de necessidade?  indagou Mary Jane, gentil.
Garrett ergueu o rosto, absorto.
	Sim. Vo me chamar assim que Frank tiver o diagnstico.
Mary Jane assentiu, contendo o impulso de confort-lo atravs de contato fsico, e dirigiu-se  lanchonete. O salo estava vazio. Junto ao balco de auto-atendimento, escolheram caf e sanduches e Garrett pagou a conta.
	Pelos velhos tempos  justificou, enquanto ocupavam uma mesa que dava para o pequeno jardim de rosas do hospital.  Voc nunca permitiu que eu gastasse muito.
	Tnhamos de nos esconder de seu pai  replicou ela, sem pensar.  Por isso, no podamos ir a muitos lugares onde se gastava muito...  S ento e notou o queixo tenso e o olhar frio de Garrett.  Desculpe-me  murmurou.  No devia ter dito isso.  Cus, o que dera nela? Jamais se mostrava rude e, com certeza, nunca em situaes delicadas como aquela. Trmula, agarrou a caneca de caf.
	No precisa se desculpar.  Garrett ergueu sua caneca e sorveu um gole de caf.   verdade. Toda aquela correria e a necessidade de nos escondermos eram desgastantes. Por isso, voc estava saindo com Hal ao mesmo tempo?
Mary Jane ergueu a cabea.
	Eu no estava  declarou.
Garrett ergueu o sobrolho, ctico.
	 compreensvel, acho. Afinal, no tinha quem lhe dissesse que no devia ou no podia sair com Hal. Voc e eu no tnhamos nenhum compromisso, e Hal devia lhe parecer atraente com sua vida estvel, sua prpria fazenda. Voc nunca tinha tido nada disso na vida.
Sem mencionar a casa precisando de uma presena feminina, a filha de seis anos que Hal j tinha, a hipoteca que quase os levou  falncia nos primeiros dez anos de casamento e a carga de trabalho muito maior do que duas pessoas podiam realizar. Mary Jane estava atnita com o fato de Garrett pensar que ela sara com Hal e com ele ao mesmo tempo. Acreditava que ela escolhera o homem que podia lhe oferecer mais naquele momento? De certa forma, ela escolhera, sim, mas s por estar grvida de um filho de Garrett, sendo que ele deixara claro que no queria mais nada com ela.
Da base do Exrcito onde recebia treinamento, ele lhe enviara a carta pedindo para no escrever mais, terminando o relacionamento entre ambos.
Idiota que era, Mary Jane ainda tentara entrar em con-tato. Escrevera novamente e at tentara lhe telefonar. Estava convencida de que Garrett concordaria em se casar, se soubesse da gravidez. Claro, enganara-se. Ele nem respondera  missiva. Anos depois, soube que poderia ter entrado em contato com ele atravs do oficial comandante, mas a ideia no lhe ocorrera aos dezoito anos, assustada.
Mary Jane ergueu o queixo, ciente de que estava quieta havia algum tempo. Guardaria consigo certos segredos... o mais importante de todos, Shannon... mas pretendia esclarecer outros.
	De fato, minha famlia no era chegada a estabilidade, famlia ou trabalho. Como meu irmo Dave dizia, nossos parentes preferiam permanecer desempregados.
	E Hal lhe fez proposta melhor.
Ela comprimiu os lbios.
	Hal foi um homem decente e maravilhoso, que me prometeu uma boa vida e que cuitpriu a promessa.
	Enquanto eu no lhe prometi nada  finalizou Garrett, a voz grave, como se tocasse num assunto que mantivera guardado por muito tempo.
	Como disse, voc no me prometeu nada.  Mas tomou tudo, pensou Mary Jane, lutando contra o amargor. Levou a caneca aos lbios com as mos trmulas e sorveu um gole de caf. Respirando fundo, recordou que j enfrentara situaes mais difceis. Venceria esta tambm.  Quer mesmo conversar sobre isso agora? Hoje foi um dia difcil para voc. Para que vasculhar o passado?
Garrett fitou-a por um bom tempo, como se quisesse negar. Como se fosse to forte e macho que poderia lidar com a situao difcil do pai e ainda travar aquela conversa delicada com a ex-namorada.
	Talvez eu esteja me sentindo nostlgico  reconheceu.
Ento, perguntou sobre os ex-colegas da escola, acerca das mudanas ocorridas em Tarrant ao longo dos anos e quanto s dificuldades da agropecuria da regio.
Mary Jane relaxou um pouco ao conversar, mas o assunto anterior sempre lhe voltava. Se tinha dvidas quanto a terem encerrado o assunto, Garrett as dissipou quando a enfermeira o localizou e informou que o dr. Kress completara os exames em Gus.
Ele assentiu  enfermeira e levantou-se.
 Eu a verei por a, Mary Jane. Ainda temos muito o que conversar.
Ela sentiu medo e no conseguiu responder. Enquanto observava Garrett deixar a lanchonete, teve a impresso de que ele falara a srio. Terminariam aquela conversa e nenhum dos dois ficaria satisfeito com o desfecho.
Gus Blackhawk sofreu outro derrame grave e morreu naquela noite, sem recobrar a conscincia. Mary Jane soube que Garrett passara a noite ao lado da cama do pai, em viglia s ltimas horas de vida do genitor, que o afastara anos antes.
No dia seguinte, tomada de tristeza, ela telefonou para a Fazenda Blackhawk a fim de expressar condolncias e oferecer ajuda e soube que Garrett estava na cidade providenciando o funeral. Ruth Chandliss disse que provavelmente no precisariam de assistncia, mas agradeceu. Afinal, no tinham parentes que compareceriam ao enterro. Garrett era a nica famlia que Gus possua. Rezariam uma missa em poucos dias, e o evento seria anunciado no jornal local.
Deprimida e ao mesmo tempo aliviada por saber que no haveria mais desentendimentos, com a morte do vizinho, Mary Jane desejou poder conversar com algum sobre os ltimos acontecimentos. O nico que conhecia a histria em todos os detalhes era seu irmo Dave, que se mudara recentemente para Denver. Pela primeira vez em dois anos, sentiu saudade de Hal, como se fosse uma perda recente. Como no podia se abrir com mais ningum, sentiu-se sozinha e desolada. Procurou manter-se ocupada para no se entregar s emoes.
Cedendo  necessidade de falar com algum, telefonou para Becca para saber como estava Jimmy.
	Ele est bem, me!  exclamou a enteada, animada. - Recebeu alta hoje cedo e j est tirando proveito do bracinho quebrado. Agora est brincando com os presentes que o sr. Blackhawk lhe deu...
A princpio, por mais improvvel que fosse, Mary Jane pensou em Gus Blackhawk, mas ento percebeu que Becca falava de outro sr. Blackhawk.
	Garrett? Garrett deu brinquedos a Jimmy?
	Sim, aqueles caros da lojinha do hospital. Na verdade, gastou tanto l que a receita daria para construir uma nova ala. Eu no sabia que vocs eram to amigos a ponto de ele deixar o pai por algum tempo para fazer essa gentileza ao seu neto.
Mary Jane sentiu um n na garganta. Olhou pela janela na direo da Fazenda Blackhawk. Talvez ele se sentisse culpado pelo que lhe dissera no hospital.
	Eu... eu no sabia que ramos, tampouco, Becca. Acho que ele s quis ser gentil.
	Muito gentil. Eu me surpreendi, mas voc sempre disse que ele no era como o pai.  Bcca mudou o tom.  Aquele pobre homem.
	De fato  concordou Mary Jane.  Fico contente por Jimmy estar bem. Eu ligo de novo mais tarde. Preciso fazer umas coisas aqui...  Tais como descobrir por que Garrett tomara tal atitude. Seria um sinal para que ela o mantivesse nos pensamentos? Como se pudesse esquec-lo! Seria uma promessa de que ainda resolveriam os assuntos pendentes entre ambos?
Talvez. De qualquer forma, ele garantira que ela no o esquecesse. Na verdade, dera um jeito de se impor  famlia toda. Jimmy passaria dias enaltecendo os brinquedos novos e o homem que os dera, a quem provavelmente nem conhecera ainda. Brittnie ficaria sabendo, bem como Shannon...
Mary Jane deteve-se, o olhar expressando uma splica. No queria que Shannon ficasse curiosa a respeito de Garrett, no queria que ela fizesse perguntas. No estava pronta para responder s perguntas inevitveis da filha.
Pegou um copo de gua, tomou um gole e mais outro. Finalmente, sentiu-se mais calma. Talvez estivesse reagindo desproporcionalmente.
Por que estava to preocupada, afinal? Garrett no se demoraria em Tarrant. Cuidaria do funeral do pai e voltaria para Albuquerque, onde centralizara a vida, os negcios. Sem dvida, venderia ou arrendaria a Fazenda Blackhawk. O lugar lhe guardava poucas boas lembranas. Havia pouca chance de Garrett e Shannon se encontrarem.
Aliviada com a concluso, Mary Jane foi ao escritrio cuidar de tarefas administrativas. Estava em pnico por nada. O episdio se encerraria, e a vida voltaria ao normal, exatamente como antes de dar aquele telefonema fatdico.
Satisfeita com a ideia, Mary Jane entregou-se ao trabalho, ignorando a voz que alertava sobre estar se enganando.
CAPITULO III

	Me, voc vai  casa aps o enterro, no ?
Mary Jane voltou-se e fitou Becca e suas duas outras filhas. Fora ao funeral por cortesia, mas elas filhas insistiram em acompanh-la. Devia ter imaginado que iriam, j que tinham sido elas a incentiv-la a telefonar para Garrett informando sobre o estado de Gus. At seus genros compareceram, embora somente o marido de Shannon, Luke Far-raday, tivesse conhecido Gus.
No cemitrio, mantivera a famlia toda afastada da cerimnia na esperana de que Garrett no reparasse em Shannon. Sem questionar, todos haviam obedecido a suas instrues. Aquela era a vantagem 'de ser a matriarca de seu pequeno cl, pensou, irnica. Os membros lhe faziam as vontades, embora fosse jovem demais para se encaixar no termo matriarca.
O pequeno grupo permaneceu longe da aglomerao de pessoas que compareceram para ver Gus Blackhawk encontrar a paz que no conhecera em vida. O vento de setembro varreu o solo, levantando poeira em meio ao pouco que restara da grama do vero. Quando a missa terminou, os presentes apresentaram condolncias a Garrett e retornaram a seus veculos. Garrett permaneceu junto  cova aberta e conversou rapidamente com o pastor que realizara o servio.
Mary Jane espantou-se com a elegncia dele no terno preto, que lhe enfatizava a cor dos cabelos e os ombros largos. Futilmente, imaginou se ele voltara a Albuquerque para pegar o traje. Parecia perfeito demais para uma roupa comprada pronta numa das lojas de Tarrant. Garrett marcava presena ao inclinar-se para conversar com o pastor, marcadamente composto e discreto.
O pastor era um timo orador na pequena igreja comunitria, porm novo na rea, de modo que no imaginara que seu convite para que as pessoas proferissem algumas palavras sobre o falecido seria recebido com silncio retumbante. Garrett atenuara o mal-estar geral convidando todos a tomar um refresco em sua casa.
	Eu no pensava em ir, Becca  declarou Mary Jane.  Preciso voltar para casa. H muito trabalho a ser feito e...
Shannon arregalou os olhos azuis.
	Mas, me, somos os vizinhos mais prximos e, embora ele no fosse gentil, papai esperaria que apresentssemos condolncias.
	Isso mesmo  reforaram Brittnie e Becca.
Mary Jane suspirou desanimada. As filhas tinham razo, claro. Deviam ir  sede da fazenda de Blackhawk, assim provando que esqueciam as desavenas que tinham tido com Gus ao longo dos anos. E correndo o risco de que Shannon e Garrett se vissem frente a frente.
Aps uma vida dzendo-lhes que os vizinhos deviam se ajudar, que deviam cuidar uns dos outros, que deviam perdoar e esquecer, no podia de repente dizer que ela e Hal mentiram todos aqueles anos, que a lio de cortesia no se aplicava nesse caso.
Perturbada, Mary Jane assentiu.
	Tem razo. Vamos l, fazer um pouco de companhia a Garrett.  Ainda assim, estava longe de seu feitio, pois em geral permanecia e ajudava os familiares abalados com a perda a arrumar a casa depois que as demais visitas iam embora. Com certeza, conseguiria esquivar-se desta vez sem arruinar completamente sua reputao na comunidade, certo?
Assim que viram Garrett apertar a mo do pastor e deixar o cemitrio, entraram nos carros e acompanharam o pequeno cortejo at a Fazenda Blackhawk. Administradora, Shannon lamentou o abandono da propriedade outrora prspera.
	Tinha ouvido dizer  comentou ela com a me.  Mas no imaginava que estivesse assim. Imagino se o sr. Blackhawk vai permitir que trabalhemos aqui, recuperando a mata original antes que o solo se deteriore irreversivelmente.  Recentemente, assumira o comando da Secretaria Municipal de Recursos Naturais e demonstrava entusiasmo com o trabalho.
	Se algum pode convenc-lo  voc  declarou o marido Luke, com um sorriso.  Afinal, voc recuperou a minha fazenda. A nossa fazenda  corrigiu-se.
	Garrett provavelmente vai vend-la  opinou Mary Jane.  Ele tem fazendas e negcios em Albuquerque, e deve voltar para l.  Quanto antes, melhor, acrescentou silenciosamente.
Shannon olhou por sobre o ombro, espantada com a frieza da me. Mary Jane desviou o olhar, incapaz de se justificar. S queria que aquele dia acabasse logo e que Shannon fosse embora logo, para longe da verdade, embora estivessem indo de encontro  mesma.
Estacionaram diante da moradia de aspecto vazio e triste, ao lado de uma dzia de outros carros de visitantes. Simplesmente, no havia como mudar a impresso, aps tanta tristeza ocorrida ali. Mary Jane respirou fundo e saltou, apoiando-se na mo do genro.
Ao entrar na ampla sala de estar, aliviou-se ao ver o local lotado e que Garrett no estava presente. Apesar do desejo de se retirar o quanto antes, foi com as filhas ajudar Ruth Chandliss a arrumar a mesa para o almoo.
A governanta ergueu o olhar e sorriu condoda. J contava uns setenta anos, dos quais quarenta dedicados ao trabalho na sede daquela fazenda. Por mais difcil que fosse conviver com Gus Blackhawk, nunca quisera se aposentar. Mary Jane imaginou o que Ruth faria agora que o patro partira para sempre.
Em poucos minutos, dispuseram as travessas sobre a mesa e Ruth convidou as visitas a se servirem. Mary Jane foi  cozinha buscar mais talheres e ouviu um barulho vindo da varanda dos fundos. Curiosa, foi at l e encontrou Garrett junto ao enorme freezer vertical, transferindo sacos de gelo ao balco prximo. Quando a viu, ele explicou:
	Vamos fazer um ponche. Usaremos a vasilha de ponche de prata de minha me. A pea no saiu da embalagem desde que ela morreu.
Mary Jane arregalou os olhos. Garrett despira o palet e enrolara as mangas da camisa, exibindo msculos. Ele fora um rapaz alto e magro. Quando se tornara to... slido?
	Ser que no est oxidada?
Garrett voltou-se para ela.
	Oxidada?
Mary Jane recuou um passo, constrangida.
	...  isso o que acontece com a prata, sabe, principalmente aps ficar sem uso por mais de quarenta anos.
Garrett meneou a cabea.
	Nem pensei nisso. Acho que no a usaremos, ento.  que... vi os utenslios nos armrios, esquecidos por tanto tempo, e pensei: "por que no?"
Mary Jane compadeceu-se. Devia haver muitos objetos to negligenciados quanto a vasilha de ponche naquela casa. Sorriu compreensiva.
	Ningum vai se importar, Garrett. No esto aqui para ver a vasilha de ponche de sua me. Esto aqui para lhe dar apoio.
	A mim? Eles nm me conhecem mais.
	Est enganado. As pessoas aqui do vale se mantm a par de suas realizaes.
Ele a avaliou.
	E voc  uma delas, Mary Jane? Voc acompanhou as minhas conquistas?
Ela no gostou do olhar, nem da pergunta.
	Eu sou uma das pessoas do vale, no sou?
	Com certeza  reconheceu Garrett.  Nunca vai sair daqui, no ?
	 o meu lar.
	Ento, acho que foi bom meu pai no ter conseguido expuls-la  provocou ele, aproximando-se.  Foi ao enterro se certificar de que o velho est mesmo morto?
	Claro que no! Mary Jane ergueu bem o queixo para poder encar-lo, j que era to mais alto.
	Por que no comemorar, agora que seus problemas acabaram? Ruth me contou que Gus costumava chamar o xerife para reclamar de voc e de sua famlia. No est contente por no ter mais de se preocupar? Por no ter de aturar um vizinho turro tentando regular a vida de todos neste vale?
Mary Jane impressionava-se com o amargor na voz dele, sem saber se o sentimento se dirigia a ela ou ao pai que acabara de morrer.
	Garrett, seu pai partiu solitrio e infeliz. Eu nunca comemoraria tal fato.
Garrett avaliou-a por um minuto e ento meneou a cabea.
	Raios  murmurou, massageando as plpebras.  Eu sei que no. Desculpe-me. Eu...
Mary Jane estendeu a mo e o tocou no brao.
	Est tudo bem, Garrett. Voc no tem nada a ver com o que seu pai fez, nem  responsvel. Ele escolheu ser como era, mas voc pode ficar de luto pelo homem que ele devia ter sido, aquele que voc gostaria que ele tivesse sido.
Garrett fitou a mo delicada sobre o brao. Devagar, colocou a prpria mo sobre a dela, prendendo-a.
	Tem razo. Eu sei, mas tenho de me lembrar sempre desse fato. Havia tanta coisa pendente entre ns... e agora nunca poderemos conversar.
Ele a fitou nos olhos cinza. Por um segundo, Mary Jane imaginou se ele falava de si mesmo ou do pai, ou dos dois. Sentiu a mo forte sobre a sua.
Garrett inclinou-se sobre ela, desafiando-a a recuar, a fugir.
Nenhum dos dois se movia ou dizia algo. Era como se desafiassem um ao outro a recuar primeiro ou a se aproximar.
Agiam errado. Mary Jane arregalou os olhos. No deviam agir assim na casa em que havia uma reunio para chorar um morto. Nem assim se mexeu.
Finalmente, Garrett a soltou, porm deslizando a mo pela seda preta macia de seu vestido, insinuando um convite. Ele a segurou pelos ombros, aproximando-a. Nenhum dos dois piscou. Ela no tentou se desvencilhar.
Mary Jane sentia o corao na garganta, o sangue late-jante nos ouvidos. Quando o calor lhe subiu pelo pescoo, gemeu perturbada.
Garrett sorriu, como se apreciasse a reao. Ento, beijou-a.
Cheia de calor e energia, Mary Jane entregou-se e saboreou a essncia de Garrett, as lembranas reavivadas. Aquele no era o rapaz que conhecera anos antes, mas o homem em que o rapaz se transformara, se bem que o gosto dele continuava o mesmo.
Com um gemido, Garrett baixou os braos e a enlaou pela cintura. Apertando-a meio erguida contra o corpo msculo, parecia deleitar-se ao contato. Mary Jane levou as mos aos ombros largos e sentiu os msculos poderosos. Agarrando-o pela camisa branca, hesitou apenas um segundo antes de se pendurar no pescoo dele e enterrar os dedos em seus cabelos.
Era um gosto to familiar e por tanto tempo negado. Quente, doce, salgado... no conseguia definir. Mary Jane se ps na ponta dos ps, querendo mais.
Garrett aprofundou o beijo, tirando-lhe o flego, aquecendo-lhe o sangue. Abraava-a com fora e desejo.
Fazia tanto tempo desde que um homem saudvel a abraara daquele jeito, quando Hal ainda tinha sade e fora... Hal. Shannon!
Mary Jane sentiju como se um saco de gelo casse sobre sua cabea e recuperou a razo imediatamente. Desvencilhou-se e recuou tropeando at dar de costas contra o free-zer. Levou a mo aos lbios e encarou Garrett chocada, envergonhada.
	Voc... voc no devia. Ns...  Fez pausa ao perceber que parte da responsabilidade era dela mesma. Recuperou o flego, recomps-se e cruzou os dedos.  No devamos fazer isso. No  a hora nem o lugar.
Garrett recuperava o flego com mais facilidade, avaliando a reao dela.
	Houve tempo em que no se importava onde ou quando eu a beijava.
	Espero ter amadurecido um pouco desde ento, e imagino que voc tambm tenha  replicou Mary Jane, abalada.
	Talvez um homem jamais amadurea em certos assuntos  considerou Garrett.  Eu no esperava isso, nem voc, mas est aqui entre ns agora e...
		Me, precisamos de talheres e... Me?
Shannon! Aflita, Mary Jane desencostou-se do freezer e passou da varanda  cozinha, sem deixar de notar a expresso atnita de Garrett. S pensava em impedir que os dois se encontrassem, afastar Shannon, por mais descontrolada e irracional que pudesse parecer.
A filha espantou-se ao v-la de cabelos meio desgrenhados e os lbios intumescidos.
	Me? Voc est bem?
	Sim, claro  afirmou Mary Jane, ofegante, a voz esganiada. Ajeitou os cabelos e olhou ao redor na cozinha estranha.  Eu estava... Aqui!  Agarrou os talheres que Ruth deixara sobre a mesa.  Vamos levar isto para a sala.  Pegou Shannon pelo brao, mas a filha desvencilhou-se e lanou um olhar  porta da varanda.
Apavorada, Mary Jane voltou-se para ver Garrett entrando na cozinha com os pacotes de gelo.
	 uma das suas filhas, Mary Jane?
Mary Jane tinha a boca to seca que no conseguia falar. Limitou-se a assistir  cena com um senso de inevitabili-dade, Shannon atravessando a cozinha com a mo estendida. Por que ensinara boas maneiras s filhas?, imaginou, histrica. Por que no lhes ensinara a fugir correndo quando viam um estranho?
	Como vai, sr. Blackhawk? Sou Shannon Farraday. Acho que sou sua vizinha duas vezes. Como sabe, cresci na Fazenda Running K, e agora meu marido e eu somos os proprietrios da Fazenda Crescent.
Garrett forou a memria.
	Meu pai foi dono dessa propriedade por muitos anos...  Fitou o rosto transtornado de Mary Jane. Ela sabia que Gus comprara aquela fazenda para o filho, como se colocasse uma cenoura diante de um burro, exigindo que ele desmanchasse o namoro com Mary Jane.
Ela sempre achara estranho que Garrett, mesmo rompendo o relacionamento, nunca tivesse assumido a Fazenda Crescent. Sem dvida, Gus atrelara outras condies...
Ento, viu sua filha alta e linda ao lado do pai biolgico e engoliu em seco. Cus! Eles no percebem a semelhana dos cabelos pretos, dos olhos azuis, das mas do rosto altas, do queixo quadrado?
Aparentemente, no percebiam. Shannon ofereceu condolncias pela perda de Garrett e ele assentiu. A seguir, ambos retomaram seus afazeres.
Mary Jane quase se ajoelhou de alvio. O momento to temido acontecera, passara, mas o cu no cara em sua cabea.
A porta abriu-se novamente e Ruth surgiu.
 O que est acontecendo aqui?  indagou a governanta, levando as mos aos quadris.  Algum tipo de buraco negro no espao? As pessoas vo atrs de gelo e talheres e desaparecem!
Os trs na cozinha sobressaltaram-se. Shannon apressou-se para a sala com os talheres, Mary Jane acompanhou-a. Ruth e Garrett encarregaram-se de levar o gelo.
Embora quisesse ir embora logo, Mary Jane obrigou-se a permanecer para ajudar. As filhas e os genros se despediram tranquilos quando ela afirmou que pegaria carona || com outro vizinho. To logo a famlia partiu, ela mesma if procurou se esconder de Garrett, circulando na periferia da sala, conversando c^m pessoas que no via h algum tempo. Mesmo evitando contato visual com Garrett, continuou pensando freneticamente no breve interldio que haviam tido.
Onde estava com a cabea ao beijar Garrett como se quisesse fundir-se a ele? Fora um comportamento totalmente inadequado.
S podia concluir que fora uma combinao de curiosidade e insanidade de sua parte, agravada pela necessidade de sair mais e incrementar a vida social!
Quanto s motivaes de Garrett, talvez ele tambm estivesse curioso.
Vrias vezes, sentindo a ateno de Garrett, erguia o olhar. Ele no parecia sofrer a culpa de conscincia que ela sentia. Observava-a pensativo, como se tentasse determinar exatamente em que ela pensava. A nica coisa em sua mente naquele instante era a esperana de que o dia acabasse logo.
Quando as pessoas comearam a ir embora, Mary Jane ajudou Ruth a organizar as sobras, deu um abrao na amiga e apressou-se at a varanda para pegar carona com algum. Aliviada, viu Pete Minton cumprimentando Garrett e preparando-se para partir. A esposa dele, Sheryl, j estava no carro.
	Pete, posso pegar uma carona com vocs?  indagou, ofegante.  Vim com as meninas, mas elas j foram.
O vizinho assentiu e ajeitou o chapu na cabea calva.
	Claro, Mary Jane. Ns j amos... 
Eu a levarei para casa  intrometeu-se Garrett.
Mary Jane sorriu, apesar dos lbios comprimidos, e ergueu a mo para dispens-lo.
	No  necessrio. Pete vai para o mesmo lado e...
	Eu disse que a levo para casa.  Garrett apertou novamente a mo de Pete.  Foi bom v-lo novamente, amigo.
Pete assentiu e foi para o carro, enquanto Mary Jane se voltava para Garrett.
	No precisa se incomodar comigo.
Ele ergueu o sobrolho, e Mary Jane viu um brilho travesso no olhar.
	Por que no? Voc se incomodou comigo.
Ela ficou tensa.
	Ajudando Ruth, quero dizer  esclareceu Garrett.  Obrigado. Vou pegar a chave. Volto j.
Frustrada, Mary Jane ficou andando na varanda, os passos curtos e instveis de irritao. Pensou em ir andando, j que era apenas um quilmetro e meio at a estrada que levava  Fazenda Running K, mas Garrett insistira em lev-la... Alm disso, no estava habituada a usar salto alto e machucaria os ps caminhando em terreno irregular.
Ao ver Garrett de volta, desceu a escada da varanda. Ele a seguiu, mas sem se incomodar em alcan-la.
Mary Jane sabia que estava sendo deselegante, mas no conseguia evitar. Sentia-se constrangida, envergonhada e abalada. No havia explicao para a loucura de retribuir o beijo de Garrett. A sra. Kelleher, cidad ntegra, pilar da comunidade, me de trs, av de dois, no tomava atitudes desse tipo, muito menos com um homem que devia evitar a todo custo.
Sentiu uma pontada no corao. No queria reviver o passado.
Garrett ultrapassou-a e ergueu o porto da garagem. Mary Jane contornou a velha caminhonete que Gus dirigia e imaginou como o velho turro odiaria v-la ali. Havia ferramentas, partes de lataria e peas mecnicas empilhadas nas estantes. Notou a expresso desolada de Garrett ao abrir-lhe a porta da caminhonete.
	Vai vender a fazenda?  indagou ela.  Esvaziar a casa?
Ele a fitou como se captasse a nota de esperana em sua voz.
	Sim. No h motivo para mant-la. Minha vida e meus negcios esto em Albuquerque.
	Faz sentido voc tomar essa atitude  opinou Mary Jane, tentando no evidenciar a mistura de alvio e desapontamento que sentia. Queria que ele voltasse para Albuquerque, no queria? Ele e Shannon no deveriam se reencontrar. Quase sofrera um ataque cardaco ao presenciar aquele breve encontro dos dois... pois j tinha a pulsao acelerada naquele momento, devido ao beijo.
Sentiu-se aliviada quando pegaram a estrada que levava a sua fazenda.
	No precisa descer  comentou, assim que ele estacionou.  Obrigada pela carona.  Frustrada, viu-o saltar e contornar o veculo para lhe abrir a porta.
	Tem um belo lugar aqui, Mary Jane  comentou ele, estendendo a mo para ajud-la a descer. Reparava nas cercas bem conservadas, no celeiro que ela e os genros haviam pintado no ms anterior, nos novilhos no curral.
	Obrigada.  Ela expressou orgulho.  Hal e eu trabalhamos muito para construir tudo isto.
Garrett fechou a porta da caminhonete e apoiou a mo na lataria.
	Ele foi um bom marido, Mary Jane?
J haviam conversado sobre aquele assunto antes, e ela no estava ansiosa em retom-lo.
	Claro. O melhor.
	Mas ele se foi... h alguns anos.
Mary Jane desviou o olhar, sem graa.
	E meu pai morreu, ento, agora tudo mudou para mim tambm  prosseguia Garrett.
Ela o fitou.
	O que quer dizer?
	Quero dizer, como tentei l em casa antes, que ainda h algo entre ns. Algo que no morreu vinte e oito anos atrs, quando voc se casou, quando meu pai tornou a situao impossvel para voc, para ns dois.
Contra toda a lgica, Mary Jane sentiu uma ponta de esperana, mas tratou de sufoc-la.
	O passado est morto e enterrado, Garrett, e assim deve permanecer.
	 o que voc pensa.  Ele avanou de repente e lhe tomou o queixo. Por um segundo, Mary Jane temeu que ele a beijasse novamente, mas ele se deteve, confuso.  No entendo exatamente do que tem medo.
Ela expressava pnico no olhar.
	Eu... eu no tenho medo de nada  blefou.
	Tem, sim.  Garrett se inclinou para a frente e lhe aplicou um leve beijo na testa.  E juro que vou descobrir o que .
Com isso, liberou-a e entrou de novo na caminhonete. Foi embora, deixando Mary Jane agarrada ao corrimo da escada da varanda, fitando-o desolada. Ele no tinha esse direito, pensou, furiosa. Ele no tinha o direito de voltar e revirar sua vida daquele jeito. Garrett dera a entender, anos antes, que no queria nada com ela. Por que mudaria de ideia agora? No permitiria que ele interferisse em sua vida e na de sua famlia.
Na prxima vez que o visse, deixaria isso bem claro. Garrett achava que faria tudo a seu modo, mas estava enganado. O que houve entre eles era passado e ela no permitiria que sua vida fosse arruinada por outro membro da famlia Blackhawk.
Por que no passava o tempo soltando touros em lojas de porcelana?, pensou Garrett, desgostoso, enquanto se afastava da fazenda de Mary Jane. Os touros teriam tanto tato quanto ele. Pelo retrovisor, viu Mary Jane apressando-se para dentro de casa. Apesar do barulho do motor, quase ouviu o som da porta de tela fechando-se atrs dela.	
Voltou a ateno  estrada. Para um homem que achava que se conhecia bem, no sabia explicar por que beijara Mary Jane daquela forma. Pelos velhos tempos, talvez? Curiosidade? As duas coisas, mais o desejo que imaginava ter morrido havia muito. Tinha tanta certeza de que no sentiria mais nada... afinal, aplacara o sentimento com afinco.        
Era difcil descobrir que falhara. Queria Mary Jane, era simples assim. Mas para ela parecia impossvel.	
Do que Mary Jane tinha tanto medo? Estaria ainda to apaixonada pelo marido a ponto de no olhar para outro homem? Se fosse assim, por que respondera ao beijo de um ex-namorado com tanta fora e ansiedade?	
Se ela ainda amava o falecido marido... Hal era um homem de sorte. Garrett viu-se na infeliz posio de invejar um homem morto.
Pegou a estrada precria que levava  casa do pai. Sua casa agora, corrigiu-se. Olhou ao redor, desolado. Sentia dor pela morte do pai, culpa por terem brigado pouco antes e miservel pelo relacionamento difcil que cultivaram a  vida inteira.	
Garrett oferecera ajuda a Gus mais de uma vez. Queria  contratar empregados e pagar-lhes bem para que ficassem.  O pai nem quis ouvir. Oferecer ajuda no adiantara, pensou  Garrett, triste. As exigncias de Gus e sua natureza desconfiada teriam espantado todos os empregados em poucos dias.     
Devia ter pressionado, mas no imaginava que o lugar estivesse to abandonado. Ruth teria lhe avisado, se no temesse tanto perder o emprego. Imaginou se Gus um dia considerara a lealdade da velha governanta.
Levaria semanas para deixar a fazenda em condies de venda, inventariar e separar todos os objetos na casa e no celeiro. Seria bem mais fcil simplesmente jogar gasolina em tudo, acender um fsforo e dar as costas.
Claro, Ruth o ajudaria. Pretendia mant-la na folha de pagamento, e ela ficaria contente em se ocupar separando os objetos, muitos dos quais Gus nem tocara durante a vida, incluindo alguns itens que pertenceram  me de Garrett, havia muito encaixotados no sto.
Isso significava que teria de voltar a Tarrant em poucas semanas. Talvez at passasse parte dos feriados de Natal ali. Seria uma mudana, em vez de passar as festas em sua casa, em Albuquerque, e as frias em Aspen.
O melhor de tudo seria ver Mary Jane novamente. Ento, tentaria descobrir por que ainda se sentiam atrados um pelo outro e por que ela parecia to relutante em se entregar ao que obviamente sentia.
A ideia bastou para deix-lo ansioso pelas frias. Sorriu a si mesmo enquanto estacionava diante da casa. Imaginou se conseguiria arrancar um convite para a ceia de Natal com Mary Jane.

CAPTULO IV

	Oque  que voc est fazendo?  
Ao ouvir a voz severa, Mary Jane assustou-se e largou o fardo de feno que retirava da caamba da caminhonete. O volume caiu no cho de uma vez, quase atingindo seu p e assustando o gado prximo. Os animais recuaram, mugindo.
	Alimentando o gado,  bvio! Que histria  essa de chegar de mansinho assim... Oh, Garrett.  Ela arregalou os olhos ao v-lo montado num garanho negro enorme.
Vestia preto tambm, cala jeans, botas e jaqueta forrada para aplacar o frio da farde de novembro.
Cavalo e cavaleiro formavam uma figura bela e poderosa.
Mary Jane sentiu o corao disparar. Garrett parecia um bandido de filmes de bangue-bangue. Ele a examinou com seus olhos azuis, apreciando a cala jeans enfiada nas botas, uma capa pesada de trabalho, que fora de Hal, camiseta de mangas compridas sob camisa de flanela velha.
	Est alimentando o gado sozinha?  indagou Garrett, desmontando graciosamente do garanho. Passou as rdeas para a frente e amarrou-as num poste junto  cerca que separava as duas propriedades. O garanho inclinou a cabea, ignorou os humanos e concentrou-se em consumir a grama seca ao seu alcance.
	Isso mesmo.  Mary Jane reposicionou o chapu e as luvas. Agarrou o fardo seguinte.
Garrett manteve as mos nos quadris enquanto contemplava os campos abertos.
	No tem ningum para ajud-la?
Ela ergueu o queixo. No gostara do tom dele nem da insinuao de que ela no tinha condies de realizar o servio.
	No momento, no. Meu empregado foi a Durango por alguns dias. A negcios  especificou, profissional.
A verdade era que seu empregado fora  cidade vizinha no final de semana e acabara na cadeia aps trs dias de bebedeira. Pretendia demiti-lo, mas no contaria nenhum desses detalhes a Garrett.
	Eu vou ajudar voc.  Ele subiu na cerca e procurou um lugar para saltar com o cavalo.
Mary Jane ergueu o queixo e lanou um olhar que deteria a maioria das pessoas.
	No, obrigada, eu posso cuidar disto.  Raios, de onde Garrett aparecera? Nem sabia que ele estava de volta a Tarrant.
No comeo de novembro, j se esquecera completamente de que Garrett voltaria ao vale, ou assim convencera-se. Retomara a rotina, tocando a vida como sempre, cumprindo suas tarefas, cuidando dos negcios da fazenda, vendo as filhas com frequncia e ocasionalmente tomando conta dos netos.
Quando pensava em Garrett, sentia um misto de surpresa e irritao. Surpresa porque ele a beijara e irritao porque ela permitira e gostara. Banindo o episdio para um canto do crebro, classificara-o na seo de "erros a no repetir".
	No precisa se incomodar  avisou, spera.  E, alm disso, voc est do lado errado da cerca para me ajudar. Mas obrigada.
	Isso  fcil de corrigir.  Garrett montou e afastou o garanho da cerca alguns metros. Sussurrou algo no ou vido do animal.
Mary Jane levou um tempo para entender o que ele ia fazer. Ao entender, subiu na caamba da caminhonete e agitou os braos.
	Garrett! No!
Ele a ignorou e instigou o animal ao galope ao encontro da cerca. Parecia excitado com a perspectiva do salto enquanto controlava o cavalo. Antes que Mary Jane pudesse verbalizar outro protesto, o conjunto voou sobre a cerca com vrios centmetros de folga, pousando na propriedade vizinha. Garrett inclinou-se e bateu no pescoo do animal. Trotaram at chegar ao lado da caminhonete.
	A seu servio, senhora!  apresentou-se ele, sorridente.
Mary Jane levou a mo ao corao.
	No est um pouco velho para isso?
	No me sinto velho.
	A atitude  de algum com dezesseis anos, a idade que devia contar quando o vi fazer isso pela primeira vez. Tive medo de que quebrasse o seu pescoo e o do cavalo.
	Mas no quebrei.  Garrett tirou o chapu e fez uma mesura.  E ainda estou vivo para contar a histria.
	E me assustar  resmungou Mary Jane, amuada, pulando da caamba para retomar o trabalho. O gado aproximou-se enquanto ela cortava o arame com o alicate que tinha no bolso e espalhava o feno.
	Estou comovido com a sua preocupao  comentou Garrett, acariciando o pescoo do garanho.  E, acredite, Renegade tambm.
Ela no respondeu enquanto ele desmontava. Como pudera se esquecer de que ele gostava de se arriscar? Aquela caracterstica no mudara, provavelmente nunca mudaria, por mais que ele amadurecesse.
Quando comearam a namorar, no ensino mdio, sentira-se atrada pelo jeito atrevido dele. Percebia agora que se envolvera no relacionamento meio selvagem porque crescera numa famlia regrada pelos impulsos do pai alcolatra. Para Garrett, claro, a atrao estava em saber que saa com algum que seu pai nunca aceitaria... a garota do lado errado dos trilhos de Tarrant. O namoro baseara-se totalmente em motivos errados... a necessidade dele de mostrar ao pai que no podia ser mandado, e a dela de ter algum que a amasse incondicionalmente. Mantiveram o relacionamento em segredo de quase todo o mundo, exceto do irmo dela.
As escapadas, os encontros secretos, as cavalgadas noturnas nos animais que Garrett surrupiava do curral de Gus foram eventos que alimentaram sua necessidade juvenil de drama.
Claro, um relacionamento como aquele estava fadado ao fracasso. No se baseava em respeito, nos interesses que sempre partilhara com Hal. O namoro adolescente fora exibico, uma ligao baseada na necessidade de desafiar as famlias e as formaes.
E baseada na luxria. Algo novo e ardente com que no souberam lidar. Tudo naquele relacionamento parecia errado. Dave tentara lhe abrir os olhos, mas ela estivera cega demais para ouvir.
Mary Jane respirou fundo e tentou se acalmar. Felizmente, superara a necessidade do tipo de amor que Garrett lhe oferecia. Por outro lado, permanecia a necessidade dele de se arriscar. O que ela comentara era verdade. Os anos passavam, porm certas coisas nunca mudavam.
Mary Jane desejou poder encerrar o trabalho e voltar para casa. Podia realizar outras tarefas, no celeiro, longe do vento gelado e da ajuda indesejada de Garrett. Mas isso seria fugir, algo que definitivamente no fazia mais. Alm disso, estava quase acabando e, com dois trabalhando, o gado seria alimentado num piscar de olhos.
Fez mais duas paradas para alimentar o gado que se reunia perto dos tanques de gua, com Garrett acompanhando a cavalo, desmontando sempre para ajud-la a tirar os fardos de feno da caamba da caminhonete. Tentou ignorar como era bom ter um parceiro novamente. Ela e Hal sempre trabalhavam juntos. No podia pensar assim, aps o sermo que passara em si mesma, mas l estava.
Cada brisa leve trazia o cheiro dele... o couro, a loo ps-barba, o discreto suor masculino, tudo o que ela no queria sentir, mas que no conseguia evitar.
Na verdade, era uma pena no ter levado seus culos escuros para bloquear a viso. E talvez um leno gigante, para no sentir a presena mscula pelo olfato.
Achando graa, perdeu a concentrao por um instante, quando se feriu no polegar com o arame da cerca.
	Ai!
	O que foi?  Garrett a viu deixar cair o alicate.  Machucou-se?
Mary Jane descalou a luva e observou o arranho longo e vermelho no polegar.
	No. Tudo bem. Nem cortou a pele.
	Deixe-me ver.  Ele lhe tomou a mo. Mary Jane tentou se desvencilhar, mas ele ordenou:  Fique quieta.
Garrett examinou o ferimento e Mary Jane espantou-se com o contraste entre suas mos. Pareciam ter o mesmo tempo de uso... at os calos combinavam... mas a mo dela tinha mais cicatrizes, arranhes e marcas.
	Est em dia com a vacina antitetnica?
Ela riu.
	Est brincando?  Apontou para os ferimentos que sofrera ao longo dos anos.  Sempre me machuco com arames e facas. Claro que nunca deixei minha vacina vencer.
Garrett ergueu a cabea para encar-la.
	Voc trabalha demais  opinou.
Ela deixou de sorrir e recolocou a luva.
	S sei trabalhar assim  retrucou.  Ento, por que no voltamos ao trabalho?
Garrett fitou-a por mais tempo, estreitando o olhar e avaliando. Finalmente, pegou o alicate do cho e voltaram a trabalhar.
Quando acabaram de alimentar o gado, Mary Jane descalou as luvas de couro e calou as de l que tinha no bolso. Se estivesse sozinha, passaria creme hidratante, mas o cuidado lhe parecia ftil diante de Garrett.
	Obrigada pela ajuda.  melhor eu ir para casa agora.
Ele ignorou o tom de dispensa.
	Tem algo para beber a na caminhonete?
Ela o fitou. Claro, ele devia estar com sede. Estavam trabalhando havia mais de uma hora e ele no devia ter levado cantil.
	Tenho uma garrafa de gua e soda gelada na caixa de isopor. Lamento, mas j tomei todo o caf quente que trouxe comigo.
	Soda?  Garrett interessou-se.  Por acaso  aquela de morango?
Mary Jane riu e meneou a cabea, o corao disparado. Oh, os beijos com sabor de morango que partilharam...
	Voc  a nica pessoa que conheo que realmente gosta de soda de morango. Ainda toma isso?
	Claro. Minha casa em Albuquerque tem uma geladeira cheia de soda de morango. Voc precisa me visitar um dia.
Mary Jane no queria conversar sobre a casa dele, uma vez que j pensara bastante a respeito. Foi at a caminhonete, pegou uma lata de soda e entregou-lhe.
	Ter de se satisfazer com esta.
	Obrigado.  Ele tirou a tampa, inclinou a cabea e tomou um bom gole. Mary Jane notou o pescoo forte, o movimento ritmado do pomo-de-ado, os cabelos escuros, e lembrou-se do beijo que trocaram no dia do funeral.
Ainda se envergonhava do ocorrido. Fora errado, uma atitude desrespeitosa, mesmo assim, a lembrana ainda suscitava calor e desejo, e ficou ainda mais envergonhada. Desviou o olhar e regularizou a respirao.
Ao acabar a soda, Garrett esmagou a lata e levou-a para a caminhonete.
	Obrigado.  Encarou-a como se soubesse que ela o observara e em que ela pensava.   melhor eu voltar para casa. Eu s queria dar uma volta com Renegade aps a viagem desde Albuquerque. Ele no gosta do trailer de transporte.
Mary Jane enfiou as mos nos bolsos do casaco.
	Oh, bem, alguns cavalos no gostam  replicou, vagamente. Tentava ser amigvel e socivel, mas no era boa em conversa fiada, principalmente com ele.  Bem, obrigada novamente pela ajuda, Garrett.
Ele pegou as rdeas de Renegade e preparou-se para montar.
	Disponha, Mary Jane. Seremos vizinhos por algum tempo, portanto, se precisar de mim, basta chamar.  O tom desdenhoso indicava que ele sabia que esperaria sentado.
Ela se alarmou.
	Por algum tempo? Por qu?
	No precisa se assustar. Apenas descobri que os negcios de Gus esto to desorganizados que levarei meses para acertar as coisas. Dividirei meu tempo entre Albuquerque e Tarrant at estar tudo em ordem. Por isso, trouxe Renegade.  Garrett inclinou-se para bater no pescoo do animal.  Assim, podemos ambos nos exercitar.
	Oh...  Mary Jane desviou o olhar, fitou a grama amarelada e, ento, o horizonte. As rvores de um bosque apresentavam folhas amarelas que caam a cada rajada de vento. Garrett ficaria na Fazenda Blackhawk. Ali, em Tarrant. Ele no era como o pai, que passava semanas enfurnado em casa e s aparecia rapidamente na cidade. Garrett sairia a toda hora para estar com os amigos e vizinhos. Iriam se ver com frequncia. Mary Jane sentia alegria e medo.
	Acho que uma das suas filhas pode me ajudar com uma parte do problema da fazenda.
Shannon! Mary Jane o encarou apavorada. Endireitou os ombros e fechou os punhos.
	Por qu?
Garrett estreitou o olhar ante a reao estranha.
	Por qu?
	Sim. Por que precisa da ajuda dela? Afinal, vai vender o lugar, no vai? O novo proprietrio pode fazer as melhorias...
	A venda est distante  comentou Garrett.  H muito a fazer antes.
Ela sentiu pnico e um gosto amargo na boca.
	Por exemplo?
Garrett suspirou.
	A casa est cheia de/papis antigos, documentos. Acho que uma das suas filhas pode separar e dar um destino a esses itens para mim.
Brittnie, ento, concluiu Mary Jane, aliviada. No Shannon. No era to mau, mas tambm no era bom.
	Si... sim  improvisou, trmula.  Minha filha Brittnie  bibliotecria e arquivista, mas est ocupada com um projeto da famlia do marido, avaliando pertences de um tio-av, e...
	E ela no teria tempo para4 me atender?  deduziu Garrett, spero.  Sei que ela  uma profissional e seu tempo  valioso. Pagarei pela consultoria.
	Tenho certeza de que no ser necessrio  afirmou Mary Jane.  Alm disso, ela mora em Durango e...
	E o qu?  indagou ele, confuso.  Fica a quarenta e cinco minutos daqui, no no outro lado da lua.
	Ela anda realmente muito ocupada.
	Voc  agente dela ou algo assim? Ela pega todos os trabalhos por seu intermdio?
	Bem, no, claro que no, mas...
	Ento, conversarei com ela pessoalmente  decidiu Garrett, e franziu o cenho.  Se ela  adulta, profissional, uma mulher casada, duvido de que precise da permisso da me para falar comigo!
	No, claro que no  respondeu Mary Jane. Seu orgulho pelas filhas brigava com a necessidade de proteg-las.
	O que h com voc?  questionou Garrett.  O que acha que sou? Um seqestrador de vizinhos? Algum tipo de cafajeste capaz de machucar sua garotinha?  Segurou com fora as rdeas, controlando o garanho inquieto.  No sou nada disso. E a nica capaz de machuc-la  voc, com suas ideias malucas.
Garrett esporeou o cavalo, saltou sobre a cerca e galopou pelos campos.
Mary Jane apoiou-se na caminhonete e cobriu os olhos com as mos trmulas. No podia lidar com aquilo. No podia. Para proteger Shannon e as outras filhas, agia e dizia coisas que levantavam suspeitas. Tinha de se controlar, ou acabaria com uma bomba nas mos.
Ela ergueu a cabea e viu cavalo e cavaleiro desaparecendo ao longe, pensando que talvez j estivesse com a bomba acesa nas mos.
	Quem diria que ele ficaria assim?  o homem mais lindo que j vi.  Millie Ferguson suspirou enquanto empacotava os itens que Mary Jane comprara na mercearia.
Mary Jane passou o cheque para pagar as compras.
	Quem?  indagou ela.  Ficaria como?
Millie revirou os olhos.
	Garrett, claro. Ele  um daqueles que eu no me importaria em conhecer numa noite de inverno...
Mary Jane ficou tensa. Garrett. Ele estava ali? Fingindo descontrao, olhou ao redor. : E o que Don diria?
	Meu marido fica na mercearia at s dez horas da noite todos os dias da semana, lembra-se?  comentou a caixa, com um sorriso.  Eu diria a ele que tinha uma reunio do clube de senhoras na igreja.
	At s dez?  indagou Mary Jane ctica.
Millie suspirou teatralmente.
	Fazendo mantas para almas necessitadas dos Estados ao norte... e testando-as.
Mary Jane sorriu enquanto olhava ao redor novamente. De fato, avistou Garrett pela vitrine. Ele parara para conversar com Don Ferguson, que varria a calada. Os dois tinham sido amigos na escola, jogado futebol e basquete juntos. Mary Jane sabia porque Garrett lhe contara, alardeando a grande dupla que os dois formavam. Os trs nunca haviam estado juntos, entretanto. Nunca se vira includa nessa parte da vida de Garrett.
Nunca haviam sado como um casal de namorados, ido ao cinema, ou feito um programa com os amigos. Por isso, fora to fcil esconder a identidade do verdadeiro pai de Shannon. Exceto por seu irmo, poucas pessoas souberam de seu envolvimento com Garrett. Cavalgavam, ficavam conversando no carro, ou, mais tarde, fazendo amor. Estava to apaixonada que no acreditava que ele mantinha o relacionamento em segredo porque se envergonhava de estar com a filha do bbado da cidade. Finalmente, ela entendera a realidade, mas ento j era tarde demais.
O erro fora cometido. Quisera manter o fato em segredo tambm, porque seu pai a teria forado a se casar com Garrett. Sempre atrs de uma oportunidade, ele adoraria colocar as mos em algum dinheiro de Gus Blackhawk, nem que fosse um suborno para manter a filha longe de Garrett.
	Sou nova aqui  comentou Millie, passando o recibo a Mary Jane.  S estou casada com Don h vinte anos e no imaginava que esta cidade produzisse homens como Garrett Blackhawk. Voc o conhecia?
	Sim.  Mary Jane pegou suas compras.  J o conhecia,  No comentou mais nada e despediu-se de Millie, que j atendia outro cliente.
Contra toda a lgica, Mary Jane tinha de concordar com Millie e admitir que Garrett estava com tima aparncia. Ele usava a mesma jaqueta forrada da ltima vez em que haviam se encontrado. Chapu, cala jeans e botas eram as roupas normais de inverno dos homens em Tarrant, mas nele pareciam perfeitas, devido aos ombros largos, as pernas longas e o aspecto slido. Ele mantinha as laterais da jaqueta para trs, as mos na cintura, a cabea levemente inclinada para ouvir Don. De repente, inclinou a cabea para trs e riu. Mary Jane sentiu uma onda de prazer pelo corpo. Millie tinha razo. Era o homem mais lindo que j pisara na cidade.
Mary Jane desejou que ele fosse embora logo, para ela poder voltar  caminhonete e sair da cidade sem ser percebida. "No que Garrett quisesse conversar com ela, aps o confronto na semana anterior.
Ela no o vira desde ento, mas ouvira muito sobre ele. Parecia que todos na cidade comentavam sobre Garrett, embora no nos mesmos termos... praguejando... que usavam para se referir ao pai dele.
Garrett j tomara algumas providncias, preparando a fazenda para a venda. Queria garantias de que o comprador a manteria intacta, sem fracion-la em minifazendas, que haviam trazido tantas pessoas da Califrnia nos ltimos anos. A deciso ganhara respeito dos moradores. Ele tambm conversara com o conselho da cidade sobre a doao de dinheiro para a construo de uma piscina municipal que levaria o nome de seu pai. Mary Jane achava aquilo irnico. Gus no gostava de crianas, as principais frequentadoras da piscina. Imaginava quais seriam as motivaes de Garrett, mas ningum mais o questionava. Os moradores estavam contentes em ter um cidado to rico de volta a Tarrant.
Mary Jane fez hora junto  porta, at comear a receber olhares das pessoas. Respirou fundo e apressou-se para a caminhonete, sabendo que no havia como evitar Garrett. Em Tarrant, todo mundo falava com todo mundo.
Mary Jane mais uma vez usava a velha jaqueta de Hal, cala jeans, botas e os cabelos escondidos sob um bon de beisebol, pois no tivera tempo de arrum-los pela manh. Ajeitou os fios mais rebeldes e saiu para a calada. No usava um pingo de maquiagem e gostaria de no se importar com isso, raios!
	Bom dia, Mary Jane  saudou Garrett, interrompendo a conversa com Don. O sorriso era irnico, bem como o modo como lhe tirou o chapu.
	Bom dia, Garrett. Don  respondeu ela, descontrada, sem parar para conversar.
Garrett despediu-se do amigo e a acompanhou.
	Deixe-me levar as compras para voc, Mary Jane.
	No  preciso. No esto pesadas. Afinal, passo o tempo arrastando fardos de feno.
	Eu sei  declarou ele, e tirou-lhe as compras de qualquer forma.  E aposto que tem msculos para provar.
	Se tenho  respondeu ela, sentindo os msculos tensos.  Quer uma demonstrao?
Garrett meneou a cabea.
	No, obrigado, embora no tenha medo de seus msculos.  Alojou as compras no ba da caamba da caminhonete e voltou-se.  Mas sim da sua boca...
Mary Jane ficou furiosa e comprimiu os lbios. Desejou ter uma resposta pronta, mas s ficou irritada. Por que ele tentava transform-la em vil? Afinal, ela s queria proteger a famlia. Ele no sabia disso, claro, nem ela no lhe contaria.
Tinha de evit-lo a todo custo, embora no soubesse como faz-lo, j que ele se sentia em casa na cidade. A venda da fazenda e a construo da piscina levariam tempo, e ele obviamente planejava ficar por ali enquanto tudo se consumava.
Mary Jane entrou na caminhonete e ligou o motor. O homem no tinha um gerente para isso? Outra pessoa no podia cuidar dos negcios para ele?
Emitiu um som de desgosto enquanto conduzia a caminhonete pelas ruas a caminho de casa.
Queria sua vida de volta, como era no comeo de setembro, antes de dar aquele telefonema fatdico. Ironicamente, lidar com Gus fora mais fcil, porque sempre soubera o que esperar do velho... o pior.
Mas no sabia como lidar com Garrett, nem queria saber, assegurou-se. A ltima coisa que desejava era ter de se preocupar todos os dias com a possibilidade de Shannon encontr-lo na cidade, de eles perceberem a semelhana fsica entre ambos e comearem a fazer perguntas.
Queria que Garrett fosse embora, que a deixasse e a sua famlia em paz. Queria a segurana de saber que a deciso que tomara anos antes fora acertada.

CAPTULO V

Por que no tira o dia de folga e vem comigo?  indagou Brittnie, entrando na casa da me, na fazenda.
Mary Jane sobressaltou-se  interrupo de seus pensamentos atormentados. A janela da cozinha, fitava a paisagem e pensava no encontro que tivera com Garrett na cidade pela manh. Sequer percebera a chegada de Brittnie nem ouvira suas palavras. Afastou os cabelos dos olhos e piscou, interrogativa.
	Como, querida? Ir aonde?
	At a Fazenda Blackhawk.  Brittnie abriu a geladeira e pegou a caixa de leite. Despejou uma poro generosa no copo, guardou a caixa e fechou de novo a geladeira.  O sr. Blackhawk me pediu para examinar uns papis que ele encontrou. So escrituras e concesses de terras de quase cem anos. Mal posso esperar para v-las, mas resolvi passar aqui para ver se quer ir comigo, visitar Ruth, distrair-se um pouco...
	Oh, no sei, Brittnie  respondeu Mary Jane, automaticamente. Passou as mos na cala jeans, tentando enxugar o suor repentino.  Tenho muito a fazer por aqui.  O empregado da fazenda voltara, e ela o despedira no ato. Agora, tinha de realizar todas as tarefas sozinha.
	Eu sabia que diria isso  respondeu Brittnie, revirando os olhos. Passou a argumentar persuasiva, mas a me ouvia apenas parcialmente.
Ento, Garrett chamara Brittnie. Fizera-o por vingana, raiva ou o qu? Talvez para provar que pretendia ignorar sua histeria? Procurara Brittnie aps o encontro que tiveram na cidade pela manh? A filha parou para tomar flego, e ela confirmou a desconfiana. Ele vira Mary Jane na cidade e imediatamente telefonara para Brittnie. Por qu? Para provar que podia?
Inconscientemente, passou o dedo na cicatriz no polegar. No se esquecia da forma carinhosa com que ele a tocara no dia em que se machucara, da conversa que tiveram, do pnico que a assolara ao imaginar Garrett perto de sua famlia. Ele estava furioso com ela, mas Mary Jane no sentia que lhe devia explicao. Sua primeira preocupao era proteger a filha.
	No concorda?
	Sim, querida, concordo  respondeu Mary Jane, vagamente.
Brittnie expressou alvio.
	timo. Vamos, ento.
Atnita, Mary Jane perguntou-se com o que concordara.
	Vamos?
	Francamente, me, voc est com a cabea nas nuvens hoje. Eu disse que t uma oportunidade boa demais para perder. Vamos ver tudo o que o sr. Blackhawk herdou do pai, e Ruth disse que precisa da sua ajuda para decidir aonde mandar alguns itens. Me, ela est trabalhando com afinco l, voc no pode decepcion-la.
Claro que no. Ruth devia estar perdida diante de tudo o que se acumulara naquela casa ao longo de cinquenta anos. Alm disso, se uma de suas filhas passaria algum tempo com o curioso Garrett Blackhawk, tinha de estar presente.
	Vou pegar o casaco  avisou.
	O casaco?  Brittnie expressou desalento.  Quer dizer que no vai trocar de roupa?
Mary Jane olhou para a cala jeans e a camisa que usava desde cedo.
	Querida, uso estas roupas o tempo todo.
	No para visitar um vizinho.
Era verdade, pensou Mary Jane, desgostosa. Por que ensinara s filhas que se arrumar para sair era sinal de respeito s pessoas que veriam? Por que elas tinham de se lembrar de tudo o que lhes ensinara? No queria trocar de roupa, no queria que Garrett pensasse que se arrumava para ele. Por outro lado, no queria que Brittnie achasse seu comportamento diferente do normal. Aquilo poderia lev-la a achar que ela se perturbava com Garrett, o que com certeza no era verdade. No queria que nenhum membro de sua famlia gastasse mais tempo do que o necessrio pensando em Garrett.
 Tem razo  concordou, com um suspiro.  Vou trocar de roupa.
Garrett olhou pela janela ao ouvir um automvel estacionar diante da casa. Emitiu um som de desgosto ao ver que Brittnie Kelleher Cruz trouxera a me junto... ou talvez Mary Jane tivesse se convidado, para manter a garotinha a salvo de outro lobo mau da famlia Blackhawk.
Espantou-se com o fato de ela ter trocado de roupa, uma vez que haviam se visto na cidade pela manh. Agora, ela usava cala preta, suter comprido azul-claro e uma capa. timo. Ao menos, livrara-se da jaqueta velha que obviamente pertencera ao finado marido. Detestava v-la com a pea. Gostaria de v-la usando as coisas que lhe prometera dcadas antes... roupas de grife, cetim, seda. Era uma pena ela no ter esperado. Poderia lhe dar tudo isso facilmente agora.
Mas por que faria isso?
Avaliou a moa alta e bonita, de cabelos loiros cacheados presos com cuidado atrs da cabea. Ela usava cala de sarja, suter e jaqueta, dando a impresso de que sabia cuidar de si. Pelo que via, Mary Jane criara trs filhas trabalhadoras e competentes. Por qu, de repente, achava que elas no podiam se proteger?
No, no se tratava de no confiar nelas. Mary Jane no confiava nele. A percepo entalou em sua garganta como um osso do peru do Dia de Ao de Graas, que Ruth lhe preparara na semana anterior. Talvez Mary Jane tivesse razo em preocupar-se. Afinal, no se conheciam mais. Mas, raios, tambm no era nenhum monstro! Gostaria de saber o que se passava na cabea dela. Afinal, ele tinha o direito de estar irritado com ela, aps todos aqueles anos. Aps declarar que o amava e que esperaria por ele, Mary Jane se casara com Hal, assim que ele deixara a cidade.
Tais preocupaes no ajudavam a descontra-lo. Ao abrir a porta, de cenho franzido, Brittnie assustou-se e Mary Jane imediatamente abraou os ombros da filha, como se quisesse proteg-la. Raios!
Garrett quis enfrentar Mary Jane, mas forou um sorriso menos assustador. Ou assim esperava. Sua secretria, Jill, dizia que fotografias de seu semblante zangado podiam ser vendidas para espantar ursos.
	Entrem  convidou. Pegou os casacos delas e os pendurou em um mancebo junto  porta.  Reuni alguns documentos que quero que veja na sala de jantar, Brittnie. No quer ir dando uma olhada?  No evitou o olhar severo a Mary Jane, enquanto Brittnie se apressava para a outra sala.  Cuidando da segurana de sua garotinha?
Ela ergueu o queixo. Como aprendera a fazer aquilo? Houve poca em que era tmida e temia a prpria sombra. Era uma das caractersticas de que mais gostava nela. Sentia-se forte e protetor Devia ser fingimento dela. Como o amor que ela lhe declarava.
	Vim porque soube que Ruth precisava de ajuda.  Mary Jane desviou-se dele como se fosse um cachorro deixado para tomar conta da casa. Deteve-se ao p da escada.
 Ela est l em cima?
Garrett detestou o tom frio.
	Sim, est. No sto, talvez.  Quase observou que ela no estava vestida para remexer objetos guardados desde 1940, mas se conteve. Mary Jane no apreciaria comentrios pessoais. Alm disso, o que ele queria dizer a ela no tinha nada a ver com roupas.
Assentindo orgulhosa, ela subiu a escada. Garrett permitiu-se admirar suas formas esguias. Bonita. Mais que bonita. Era uma pena aquele pacote todo estar envolto em uma atitude defensiva. Mas lidaria com ela mais tarde. Naquele momento, precisava conversar com Brittnie. E dirigiu-se  sala de jantar.
No sto, Mary Jane tratou logo de ajudar Ruth a encher caixas com roupas velhas. Passaram uma tarde agradvel, analisando todos os itens e decidindo o que seria destinado a caridade.
Quando a primeira caixa ficou pronta, Ruth levantou-se para lev-la para baixo, mas Mary Jane tirou-lhe o fardo.
	Eu fao isso. Volto j.
No trreo, ao colocar a caixa junto  pilha crescente de donativos junto a porta, Mary Jane prestou ateno nas vozes na sala de jantar, mas no conseguiu entender nada. Teve vontade de espionar, ver se Garrett ainda estava com Brittnie, mas no era to obsessiva. Alm disso, Garrett teria mais um motivo para acus-la de ser superprotetora.
Subiu a escada e, no corredor do primeiro pavimento, sentiu a curiosidade suplantar a relutncia por estar naquela casa. Fora l no dia do funeral de Gus, mas no estivera na ala ntima. Agora, podia se deter e dar uma olhada nos cmodos. Ruth tentara manter a casa limpa. Os banheiros brilhavam, bem como o piso de carvalho.
Como a maioria dos quartos estava empoeirada, Mary Jane imaginou se Gus proibira a governanta de limp-los.
Um cmodo diferia dos demais. Mary Jane deteve-se  porta. Logo percebeu tratar-se de uma saleta ntima, sada de um filme da dcada de 1950.
Nas janelas, belas cortinas de chintz. Espantou-se ao ver que no estavam desbotadas, como se sempre tivessem sido protegidas do sol. O tapete persa em vrios tons de verde e azul, parecia ter sido instalado no dia anterior.
Havia duas poltronas confortveis e uma espreguiadeira com estofamento em veludo azul formando um canto agradvel para conversas. Uma delicada escrivaninha ocupava o vo junto  janela. O ambiente era bonito, tranquilo e to diferente de Gus que Mary Jane no pde evitar a surpresa.
	Esta era a saleta de minha me  informou Garrett.
Mary Jane sobressaltou-se. Estava to distrada que no percebera a aproximao.
	Oh! Entendo. Est assim h...
	Mais de quarenta anos.  Garrett entrou na saleta e olhou ao redor, pensativo.  Meu pai nunca me deixava entrar aqui quando menino. Tinha medo de que eu quebrasse alguma coisa.  Sorriu maroto.  Eu costumava entrar quando ele no estava.
Mary Jane levou as mos  cintura e entrou na saleta tambm. No conseguia encarar Garret, imaginando o ga-rotinho confuso que fora, saudoso da me, buscando uma maneira de resgat-la, tentando senti-la nos objetos, sempre rechaado pelo pai severo. Sentiu um n na garganta de tristeza.
	 lindo  comentou, a nica coisa que conseguiu pensar em dizer.  Voc... voc se lembra dela? Eu no a conheci, pois me mudei para Tarrant s aos dezesseis anos.
Garrett ergueu o sobrolho.
	Eu sei quantos anos tinha quando se mudou para Tarrant.  Aps breve pausa, acrescentou:  Eu me lembro de que ela nunca ficou nervosa comigo, nunca gritou comigo.
	J recebia demais desse tratamento de seu pai  murmurou Mary Jane, arrependendo-se em seguida.  Oh, desculpe-me. Eu no devia...
	Gus no era assim quando ela estava viva. Ele era feliz.
Mary Jane fitou-o $asma.
	 verdade  reafirmou Garrett.  Ele mudou depois que ela morreu, perdeu interesse em tudo por algum tempo. Lembro-me dele sentado  escrivaninha, fitando a janela. Eu costumava ficar junto  porta, observando-o. Um dia, ele se levantou e saiu, disse que nada na saleta devia ser tocado ou mudado, mas as persianas deviam ser abertas, e Ruth as limpava toda semana. Nunca o vi voltar aqui, mas acho que ele vinha. s vezes, encontrava alguns objetos fora de lugar na escrivaninha.  Indicou o mvel, sobre o qual empilhavam-se papis de carta amarelados.
	... triste.  Inesperadamente, Mary Jane sentiu as lgrimas brotarem. Voltou-se e enxugou os olhos discretamente. Quem diria que se solidarizaria com o velho Gus Blackhawk?
	Acho que entendo  admitiu, cautelosa.  Meu pai sempre bebeu, mas piorou quando minha me morreu de pneumonia, pouco antes de nos mudarmos para c.  Era outro fato que tinham em comum, a perda da me. Mary Jane sempre imaginara se teria sido tudo diferente, se sua me no tivesse morrido. Connie Sills a teria alertado para ficar longe de Garrett? Teria feito Bryce Sills largar a bebida? Talvez, mas Mary Jane aprendera a no se iludir com a possibilidade.
	Isso foi triste tambm  comentou Garrett, interrompendo seus pensamentos.  Deve ter sido difcil para voc.  Fez pausa.  Acho que devia ter chorado por minha me, como todos os garotinhos fazem. Por outro lado, s j adulto entendi a forma como meu pai expressou a dor.
	Voc quer dizer a retrao dele, a...
	O mau humor? A natureza controladora? Sim. Ele deve ter achado que, se controlasse todos e tudo a seu redor, no perderia o que amava.
	Voc.
Garrett deu de ombros.
	Acho que, a seu modo, ele me amava.
	Mas ele o perdeu de qualquer forma. Ele o afastou.
Sim, e sempre me perguntei se ele lamentava isso.
Garrett devia ter lamentado, sabendo que no podia voltar, que nunca seria o filho perfeito que Gus queria.
Lamentara deix-la para trs, em Tarrant, ao se alistar no Exrcito? Sabia que era egosmo; mas desejava aquela resposta, mais do que tudo. Era estranho como aceitara a situao anos antes, porm, ao rev-lo, todas as respostas voltavam a parecer urgentes.
Mary Jane avaliou os olhos cinza cheios de compaixo e questionamentos. Queria perguntar por que ele nunca respondera a suas cartas, por que no escrevera explicando que ela no tinha lugar em sua vida. Mas conteve-se.
	Parece que entendemos melhor as coisas  medida que envelhecemos  comentou ela.
	Talvez, e talvez nunca venhamos a entender algumas coisas. Sempre quis saber por que se casou to rpido com Hal aps eu me alistar.
Ela levou a mo  tmpora.
	Eu realmente no quero discutir isso, Garrett. Foi h muito tempo. Uma eternidade, no importa mais.
	Oh, acho que importa  contrariou ele, os olhos azuis fixos nela.  Acho que explica por que anda to nervosa perto de mim. Sente-se culpada?
	Claro que no. No tenho por que me sentir culpada.
	Arrependimento, ento?
	Nada disso. E no vou mais discutir esse assunto.
	Nunca o discutimos  replicou Garrett, irnico.  At agora, voc no fez outra coisa seno fugir da questo.
Ele agia como se fosse culpa dela. Mary Jane contraiu os lbios e cerrou os punhos ao longo do corpo. Estava to irritada que no conseguia revidar. Antes que se manifestasse, ele continuou:
	 espantoso como a vida muda num piscar de olhos.
	O que quer dizer?
	Quero dizer que, em minha ingenuidade juvenil, imaginei que fssemos nos casar.  Garrett ergueu os braos e girou o corpo no meio da saleta.  Que amos morar aqui, ou na Fazenda Crescent, que meu pai comprara para mim.
Ento, por que ele mudara de ideia? Por que lhe escrevera aquela carta? Mary Jane queria saber, mas conteve-se, apesar de ele parecer culp-la. No queria que o nascimento de Shannon viesse  tona.
	No  irnico que agora sua filha more na fazenda Crescent?
Mais do que imagina, pensou Mary Jane, sentindo o corao na garganta.
	Eu... no passo todo o tempo pensando nas ironias da sua vida  retrucou, orgulhosa do tom frio.  E  intil discutirmos isso agora.
	Oh, no sei...  Ele inclinou a cabea enquanto a avaliava.  Acho interessante partilhar lembranas, lembrar de como eram as coisas. Lembra-se das datas em que samos?
	No.
	Mentirosa  desdenhou ele.  Lembra-se to bem quanto eu.  A voz saiu grave, e ele estreitou o olhar.  Lembra-se dos passeios na minha caminhonete? Dos pique niques ao luar?
	No  mentiu ela. Tinham sido encontros com que toda jovem sonhava... romnticos e proibidos.
	Lembra-se da coberta que estendemos no cho? De fazer amor sob as estrelas?
	No!  Mary Jane sentiu o rosto queimar. Lembrava-se perfeitamente do episdio, e pensou do beb que aquele amor descuidado gerara. Trmula, cerrou mais os punhos.
 Eu me lembro de que voc no saa comigo em pblico. Nunca fizemos nada que namorados normais fazem... ir ao cinema,  lanchonete, ao baile de formatura...  Calou-se, pois soava amarga. O fato de no terem comparecido junto ao baile de formatura era o que mais magoava. Tivera certeza de que Garrett a convidaria, mas ele no convidara. Pelo menos, ele no convidara mais ningum.
Garrett ficou tenso.
	Eu era um idiota  reconheceu.  Ns dois ramos.
	Ento, por que falar sobre isso? Deixe o passado enterrado.  Magoada com as lembranas e irritada com Garrett, Mary Jane saiu ao corredor.  Ruth precisa da minha ajuda no sto.
Garrett acompanhou-a. Ela via que ele ainda se atormentava com as dvidas.
	Ruth desceu h cinco minutos para nos preparar um lanche. Voc vai ficar, claro.
Ela se recusou automaticamente.
	Oh, acho que no. Tenho tarefas em casa e...
	Brittnie disse que vocs duas ficariam.
Mesmo acuada, Mary Jane tinha de admirar a habilidade dele. S que queria dar a palavra final.
	Minha filha no responde por mim.  Queria deixar aquela casa e manter todos os membros de sua famlia longe tambm.
	Devia  rebateu Garrett, e indicou a escada.  Ela tem mais juzo do que voc.
Tanto trabalho para ter a ltima palavra. Mary Jane sabia que era infantil, mas forou um sorriso e tomou a direo indicada.
No trreo, Brittnie chamou-a da sala de jantar.
	Olhe para isto, me!  Entusiasmada, mostrou caixas de papis empoeirados que assustariam qualquer um, menos uma arquivista. Havia dirios, livros de contabilidade, revistas antigas.
Mary Jane admirou os itens, desejando que aquilo fosse tudo, e que Brittnie no tivesse mais contato com Garrett.
Duvidava de que esse fosse o caso, aps ver a quantidade de caixas no sto. Teria de se conformar em ter Garrett por perto por algum tempo. A noo deixava-a irritada e atenta. Sua esperana de manter a famlia afastada dele caa por terra.
Ruth chamou-os  cozinha, para saborearem sanduches e uma sopa. Mary Jane no sentia fome. Na verdade, no tinha certeza se conseguiria engolir qualquer coisa, mas no queria magoar a amiga. Assim, pegou um prato, serviu-se de uma concha de sopa, aceitou uma xcara de caf e sentou-se  mesa ao lado da filha. Ruth comentou seus planos de aposentaria. No queria parar de trabalhar, mas Garrett a proveria com uma penso generosa. Com planos de morar perto da filha, na Califrnia, comentava animada que agora passaria mais tempo com os netos.
Enquanto ouvia Ruth, Mary Jane tambm prestava ateno  conversa entre Brittnie e Garrett, que se sentara  cabeceira da mesa. Ao ouvir o nome de Shannon, interrompeu o que dizia a Ruth e voltou-se rpido para Brittnie.
	Shannon saberia exatamente o que fazer. Ela est na Secretaria de Recursos Naturais  comentava a filha, orgulhosa da irm.  Ela sonha em recuperar a Fazenda Blackhawk h anos.
Mary Jane pousou a xcara no pires.
	Oh, tenho certeza de que Garrett no est interessado nisso  opinou.  Afinal, ele vai vender a fazenda e os novos proprietrios podero cuidar do assunto eles mesmos.
Brittnie a fitou de olhos arregalados. Sem dvida, imaginava se a me perdera a razo. Mary Jane era uma das maiores defensoras do manejo sustentvel das terras. Esboou um sorriso que reconhecia que "as mes sabem das coisas", ergueu sua xcara e sorveu um gole de caf.
Garrett tinha os olhos brilhantes ao comentar:
	Conseguirei um preo melhor se a recuperao das terras j estiver em andamento. Um verdadeiro fazendeiro no vai querer o lugar como est. Os nicos que se interessariam seriam empreendedores imobilirios, prontos para lotear o terreno.  Enrijeceu o maxilar.  E isso s vai acontecer sobre o meu cadver. Brittnie riu.
	Voc parece Shannon...  Fitou Garrett detidamente.  Na verdade, voc parecia Shannon falando.
Apavorada, Mary Jane entornou seu caf, e o lquido quente se derramou sobre sua mo.
	Ai!
Todos se levantaram aflitos.
	Me, voc est bem?  indagou Brittnie, correndo  geladeira.  Vou pegar um pouco de gelo.
	Eu tenho um creme para queimaduras.  Ruth foi buscar a caixa de remdios sobre a pia na varanda dos fundos.
No caminho, pegou uma toalha, voltou-se e lanou-a a Garrett, que arrebatou a pea no ar. Rapidamente, ele tomou a mo de Mary Jane e enxugou o caf enquanto avaliava sua expresso.
	Qual  o problema? Acha que, porque me aproveitei de voc quando era jovem, que farei o mesmo com suas filhas?
Ela quis negar, mas conteve-se. Afinal, se negasse, teria de explicar o motivo verdadeiro.
	No sei qual  o seu problema  continuava Garrett, a voz baixa e sarcstica.  Mas voc se tornou uma mulher amarga e doentia.
Brittnie chegou com o gelo e Mary Jane aplicou a compressa gelada sobre a queimadura.
	Est... est tudo bem  afirmou, com um sorriso fraco para tranquilizar a filha.  Voc me conhece, sou desajeitada, fao isso todo o tempo.
Aliviada, Brittnie sorriu.
	Sim, papai sempre dizia que, se algum tivesse de sofrer algum acidente, seria voc.
	Ele tinha razo.
Ruth voltou com o creme. Enquanto a amiga e a filha 
cuidavam do curativo, Mary Jane encarou Garrett. A opinio dele era bvia na expresso severa. Ela no se importava, porque, se Garrett a considerasse maluca e obsessiva, ficaria longe dela e, talvez, de seus familiares.
E era isso o que ela queria. Era exatamente isso o que queria. No importava o desconforto de saber que ele pensava assim dela. Era o melhor para todos.
	Mary Jane no parecia um pouco... nervosa?  indagou Ruth a Garrett, na varanda, ao acenarem s vizinhas que partiam. Ergueu o avental para proteger os braos do vento frio do entardecer.
	Parecia  concordou Garrett. Cruzou os braos e fitou o carro que se afastava. Na verdade, aflita seria a palavra certa.  Ela anda... preocupada com algo?  Ou seria ele o motivo do nervosismo?
- No mais do que a maioria dos fazendeiros por aqui. Anda trabalhando muito desde a morte de Hal. Mary Jane est determinada a tocar a fazenda, j que nenhuma das filhas se interessa. Becca e o marido tm seu prprio negcio. Ele  engenheiro de minas e trabalha selando minas perigosas por todo o Oe^te. Shannon e o marido, donos da Fazenda Crescent, planejam transform-la num hotel-fazenda. Brittnie trabalha mais em Durango, e o marido tem um escritrio especializado em administrao de imveis. Talvez uma das filhas de Mary Jane se interesse pela fazenda um dia, mas duvido, e  cedo demais para saber se um dos netos vai se interessar.
Garrett espantava-se em pensar em Mary Jane como av. Parecia errado que, aps cuidar da famlia e perder o marido, ela no pudesse descansar e tivesse que continuar trabalhando com afinco.
Segurou a porta para Ruth enquanto entravam na casa. A governanta retornou ao trabalho e ele deu uma olhada na pilha de itens que Brittnie separara. Sorriu. Nunca vira algum to entusiasmado diante de uma pilha de papis velhos. Era uma garota e tanto.
Como a me fora.
Toda vez que encontrava Mary Jane, tinha de reajustar a ideia que fazia dela. No se tratava mais da garota meiga e suscetvel que conhecera anos antes. No que esperasse isso, mas fora assim que pensara nela durante todos aqueles anos.
Recordou o que ela dissera sobre o namoro de ambos e franziu o cenho ao admitir a verdade. Ela acreditava mesmo que ele se envergonhara dela, mas no era assim. Lamentara a vida de Mary Jane com o pai alcolatra e quisera salv-la. Mantivera o relacionamento em segredo no por se envergonhar dela, ou do amor que sentia por ela, mas porque tinha medo do que seu pai poderia fazer a ela e sua famlia se desconfiasse da seriedade de suas intenes.
Mas aquilo era passado. E devia ser esquecido. Pensou na saleta que o pai preservara com tanto cuidado, com os objetos de sua me, o lugar em que ele se refugiava para se lembrar da esposa que morrera to jovem.
Garrett tambm se sentia assim em relao a Mary Jane. No eram mais os mesmos. Como poderiam, aps tantos anos? Mesmo assim, parte dele no deixava as lembranas para trs. Queria acreditar que ocorria o mesmo com Mary Jane. Afinal, o beijo que trocaram semanas antes indicava mais do que uma mulher solitria. Tivera o sabor de um desejo compatvel ao seu.
Ela queria evit-lo, manter a famlia longe dele, mas isso no aconteceria. Ele no construra uma vida bem-sucedida recuando diante de um desafio. E no pretendia comear agora, gostasse ela ou no.

CAPTULO VI

Uma mulher amarga e doentia. Dias depois, a condenao de Garrett ainda ecoava nos ouvidos de Mary Jane. Ela permitira que ele pensasse assim para distra-lo do comentrio de Brittnie. Na verdade, voc parecia Shannon falando agora h pouco...
Pensou que fosse morrer de ansiedade naquele instante. O pior era que a filha estava certa. Ao erguer o queixo e anunciar que a fazenda s seria fracionada sobre seu cadver, Garrett imprimira a mesma expresso determinada que Shannon usava a<> tratar do mesmo assunto.
Mas isso no era o pior, ponderou Mary Jane, enquanto dirigia a caminhonete pela rua principal  procura de uma vaga para estacionar. O pior seria Garrett concluir que precisava da ajuda de Shannon e entrar em contato com ela. Se isso acontecesse, no poderia fazer nada para evitar que se encontrassem. Shannon era adulta e administrava a prpria carreira sem interferncia da me. A filha a acharia maluca se lhe pedisse para no atender Garrett Blackhawk. Poderia ter dado certo quando Shannon tinha cinco anos, mas no agora.
Mary Jane estacionou a caminhonete e saltou, esmagando a neve recm-cada com as botas. Era a primeira nevada da estao. Aps vrios anos com pouca neve, os habitantes de Tarrant estavam atnitos em ver tal quantidade. E nevar assim logo no comeo de dezembro tornava tudo especial, pois ajustava o humor de todos  estao natalina.
Aconchegou-se mais no velho casaco de Hal e protegeu as mos nos bolsos. As filhas provocavam-na por continuar usando a pea, alis, muito quente e prtica. Comeara a us-lo aps a morte de Hal porque tinha o cheiro dele. Lembrava-lhe os bons tempos, de antes da doena. J fora lavado tantas vezes que cheirava a amaciante de roupas, mas ainda guardava boas recordaes. Alm disso, us-lo se tornara um hbito, proporcionando economia, pois no teria de comprar um novo por um bom tempo. Afinal, a responsabilidade pela fazenda era toda sua agora, e ficara mais comedida quanto a gastar dinheiro.
Mary Jane entrou na loja de ferragens para comprar alguns itens de que precisava. Ao ver a vitrine com enfeites e luzes de Natal, comprou alguns ornamentos tambm e saiu carregada de pacotes. No precisava de mais decorao de Natal, porm, incapaz de resistir, adquiria novos itens a cada ano. Assim, tornava a expectativa pelo feriado mais divertida, tendo ideias sobre como usar os novos enfeites. A famlia reclamava que ela levava uma semana para arrumar tudo. Naquele ano, fora esperta e chamara todos para ajudar. Iriam  noite, para ajudar a montar a rvore e decorar a casa.
Deixou as compras trancadas na caminhonete e foi almoar na lanchonete. No caminho, passou diante da vitrine da butique de Lauren e interessou-se por um vestido de veludo azul lindo ali exposto.
Parou e observou os detalhes. Desde quando no comprava um vestido para o Natal? A resposta era fcil. Nunca comprara. Nunca vestira roupa nova para usar num feriado especfico, nem mesmo para o Natal.
Meneou a cabea e voltou a caminhar. Mesmo que comparecesse a alguma festa de Natal, usaria um traje simples com cardig, no um vestido de veludo. Mas aquele era to bonito... Estacou e deu meia-volta. No faria mal entrar e dar uma olhada de perto. Empurrou a porta da butique.
Lauren Wilberson ergueu o olhar da vitrine de bijuterias que arrumava.
 Oi, Mary Jane. Como vai?
Mary Jane saudou-a, e trocaram as novidades sobre suas famlias. Lauren, uma das melhores amigas de Becca, tentava tocar aquele estabelecimento. Recm-divorciada de um marido mulherengo, agora criava os dois filhos sozinha.
	Entrou s para dizer ol ou est interessada em algo especial?
	O vestido na vitrine  informou Mary Jane, sentindo-se uma adolescente frvola com a ideia de experiment-lo.
Os olhos de Lauren brilharam.
	No  lindo? Chegou esta manh. Eu o coloquei na vitrine assim que removi as dobras. Vou peg-lo para voc.
 Abriu a vitrine, retirou a pea, levou-o ao provador e convidou Mary Jane a experiment-lo com uma mesura.   todo seu.
Assim que vestiu a pea, Mary Jane teve de admitir que Lauren estava certa. O decote em V acentuava a cintura. A renda preta tornava o modelo sofisticado e enfatizava os seios. As mangas compridas apresentavam franzido nos ombros, justas nos punhos. O efeito geral era elegante. A cor parecia favorecer seus cabelos loiros e os olhos cinza.
	Deixe-me ver  pediu Lauren.  No h mais ningum na loja agora, pode sair.
Mary Jane deixou o provador, sentindo-se jovem e maluca ao rodopiar diante do fespelho de corpo inteiro triplo.
	Oh, est perfeito!  avaliou Lauren, os olhos brilhando.  Mesmo que no tivesse esperana de que comprasse, diria isso.
Mary Jane riu ante a honestidade da amiga. Tinha de concordar. O vestido era perfeito. Daria quase tudo por ele... Olhou discretamente a etiqueta e franziu o cenho... exceto pagar aquela quantia.
O telefone tocou e Lauren foi atender. Mary Jane deu meia-volta para ver as costas. O melhor de tudo era que, apesar de toda aquela renda e drapeado, ainda parecia magra.
Sorrindo, Mary Jane ergueu o olhar e percebeu uma figura alta observando-a pela vitrine.
Garrett Blackhawk. Tinha de ser ele. Inclinado para a frente, quase tocando no vidro, ele a apreciava com um brilho satisfeito nos olhos. Ergueu a mo e formou um "ok" com o indicador e o polegar. Ento, com uma piscadela, movimentou os lbios formando a palavra "compre".
Automaticamente, Mary Jane ficou tensa e ergueu o queixo. No gostava de ser observada sem seu conhecimento e menos ainda por Garrett. O pior era sentir o corao disparado...
Garrett parecia ter mudado de ideia a seu respeito. Se o brilho nos olhos dele era indicao, ele no a considerava uma mulher amarga e doentia, pelo menos, no naquele momento.
Ela meneou a cabea, indicando que no tinha a inteno de comprar o vestido. Por mais que tivesse gostado do modelo e apesar de querer ajudar Lauren, no podia arcar com aquela despesa.
	Covarde.  Garrett apenas movimentara os lbios, sem emitir som, mas a mensagem fora clara.
Mary Jane fez uma careta, ele riu. No provador, Mary Jane despiu o vestido com cuidado, ajeitou-o no cabide, vestiu de novo a cala jeans e a camisa de flanela, calou as botas e cobriu tudo com o velho casaco de Hal. Faltava um detalhe. Tirou o bon do bolso e o ajeitou na cabea para aquec-la.
	Pode muito bem completar o visual maltrapilha  resmungou.
Por breves minutos, sentira-se maravilhosa, livre, no uma dona de fazenda com um rebanho de vacas no muito boas dependendo de seus esforos. Suspirou. Bastava de fantasia. Era hora de voltar ao mundo real.
Pegou o vestido, devolveu-o a Lauren, agradeceu e se encaminhou  porta. Como desconfiava, Garrett a aguardava do lado de fora, recostado na parede de tijolos antiga.
	Por que no comprou o vestido?
	No preciso dele.
	Toda mulher precisa de um vestido como aquele  declarou Garrett, os olhos brilhando.  Entretanto, seria melhor se o decote fosse mais baixo na frente...
Mary Jane ignorou o comentrio e continuou andando pela calada, cumprimentando amigos e conhecidos.
	No tem trabalho a fazer, Garrett? No imagino um homem de negcios com tempo para abordar mulheres em vias pblicas.
	Bem, imaginou errado. Fao isso todos os dias a esta hora, para polir a imagem de intil que tento consolidar. Que tal se eu lhe pagasse um almoo? Ela o olhou de soslaio.
	Que tal se eu no quiser?
	A lanchonete fica ali na esquina.
Ela se voltou para ele carrancuda.
	Moro nesta cidade h trinta anos. Eu sei onde fica a lanchonete.  No mencionou que se dirigia para l. 
	Ah, timo  respondeu ele, indiferente.  Ento, no terei de lev-la pela mo.
	Voc no vai me levar pela mo a lugar algum  admoestou Mary Jane. Raios, por que se divertia tanto sob o assdio? Cada encontro com Garrett era diferente, de enternecedor a irritante, porm sempre estimulante.
	Talvez tenha razo  admitiu ele.  Voc no  velha o bastante para eu ter de lev-la pela mo.
Mary Jane estacou.
	Como? J se esqueceu de que  seis meses mais velho do que eu?
	, mas as mulheres envelhecem mais rpido  observou ele, e aguardou a reao.
E no demorou. Ela arregalou os olhos e enrubesceu.
	Porque temos de lidar com homens como voc!
	Nem queira pensar em como a vida seria maante sem ns  afirmou Garrett, arrogante.
	Oh, mas to serena...
Continuavam parados na calada diante da farmcia, enfrentando-se. Mary Jane ofegava, o corao leve de excitao. Os olhos azuis de Garrett obscureceram-se, o bom humor substitudo por interesse e, ento, desejo.
	Almoce comigo, Mary Jane  pediu ele.
	No. Eu... no posso.  Na verdade, ela no conseguia se lembrar do motivo para no almoar com ele.
	Qual  o problema? A viva Kelleher nunca sai e se distrai?
O prazer se esvaiu e Mary Jane adotou uma expresso fria.
	No acho que isso seja da sua conta.
Ele estendeu a mo e agarrou a gola de seu casaco.
	Por que sempre usa isto? Toda vez que a vejo, est com este casaco. No tem um do seu tamanho?
	Ele  quente  justificou ela.  E foi de Hal.
	Existe alguma lei obrigando vivas a usar o casaco do falecido onde quer que v? Voc o usa para se lembrar de que ele est morto e no tem o direito de se distrair almoando com outra pessoa?
Horrorizada, Mary Jane encarou-o. Era cruel e injusto. Antes que pudesse dar uma resposta irritada, ele continuou:
	Pois saiba que no existe nenhuma lei obrigando vivas a deixar de viver quando o marido se vai.  meio intil, no acha? Afinal, meu pai passou a vida de luto pela esposa e nunca voltou a viver de fato.  isso o que pretende fazer? No comprou aquele vestido porque ele no combina com sua imagem de viva angustiada.
Mary Jane estreitou o olhar e ergueu o queixo.
	Voc  arrogante e pretensioso. Acha que sabe muito. Tem tanta certeza de que sabe todas as respostas, mas no faz ideia do que est falando. No sabe o que  cuidar de algum que ama durante uma longa enfermidade e, ento, perder a luta. No sabe como  voltar para casa depois do funeral e ver a caneca de caf favorita dele na mesa, diante da cadeira, os chinelos debaixo da cama, as roupas no armrio. No sabe como  fechar os olhos, abraar as roupas e sentir o cheiro da pessoa, fingir por um momento que ainda est viva, que s est no outro quarto e logo estar a seu lado, se voc desejar com fora...  As lgrimas brotaram inesperadamente.  Voc nunca perdeu um cnjuge, perdeu? Sendo assim...
Ento ele percebeu que fora longe demais. Ele a magoara. Garrett via isso e estava chocado, mas alguma fora irracional o forava a continuar.
	Nunca tive algum para perder.  Ele se aproximou at ficarem quase de narizes colados.  Nunca tive esposa, porque voc no esperou por mim.
	Agora sabemos por qu, no  mesmo?  acusou Mary Jane, furiosa.
Garrett fitou-a por um segundo e ento se retraiu.
	No, no sabemos.  difcil para mim, acreditar que voc me passou para trs e se casou com Hal porque imaginava que eu envelheceria e me tornaria um cafajeste arrogante e pretensioso.
	Pois acredite  sussurrou ela, querendo mago-lo tanto quanto ele a magoara.  Porque foi isso mesmo o que aconteceu. Afinal, conheci seu pai. No tinha motivo para achar que voc no acabaria igual a ele.
Aos tropees, Mary Jane deu meia-volta e correu para a caminhonete. Tomou o volante e deu a partida no motor com mos trmulas. Dando r sem olhar, entrou na via principal ao som de buzinadas. Pisando fundo no acelerador, deixou a cidade.
Garrett ficou parado, observando-a, alheio s pessoas que o contornavam e fitavam curiosas. Ele sentia como se seu corao tivesse sido arrancado.
Cus, o que fizera? Por que a pressionara daquele jeito? Por que dissera aquelas coisas terrveis? Ergueu a mo, vagamente ciente de estar trmulo, e esfregou os lbios .secos.
Mary Jane tinha razo? Ele estava ficando como Gus?
s quatro horas daquela tarde, um furgo branco parou diante da casa de Mary Jane e o entregador caminhou pela neve at a porta da frente. Olhando pela janela, ela se surpreendeu ao ver que era da floricultura de Margie, na cidade.
Talvez fosse a guirlanda que seu irmo Dave lhe enviava todos os anos no Natal. Assinou o recibo ansiosa, deu uma gorjeta ao entregador e pousou a caixa no aparador do vestbulo para abri-la. Era uma guirlanda, mas no do tipo que seu irmo sempre mandava. Aquela tinha mais detalhes, como frutas de cera. Encantada, procurou o carto e murmurou as palavras:
	Desculpe-me. Voc tinha razo. Sou um cafajeste arrogante e pretensioso.  Estava assinado com as iniciais maisculas familiares "GB".
Garrett. Fitou a guirlanda sem saber o que fazer. Jogou o carto de volta  caixa. Sua vontade era embrulhar tudo de novo e jogar no lixo... ou melhor, na lareira! Levara a tarde toda para se acalmar da discusso com Garrett na cidade, entregue  melhor frmula que conhecia para se esquecer dos problemas: limpar e cozinhar. A casa estava imaculada, cheirando a limpeza, e havia tortas de abbora esfriando na cozinha, mas ainda lutava com os sentimentos de mgoa, raiva e humilhao aps as palavras de Garrett.
A guirlanda era linda, mas no compensava a mgoa. Estava abalada devido ao confronto com Garrett. Queria evit-lo. No se tratava mais apenas de proteger Shannon e sua famlia, mas se poupar de mais dor. No importava quo linda fosse a guirlanda, no iria pendur-la. Pegou o carto mais uma vez, leu a mensagem e jogou-o na lareira, onde queimaria quando a acendesse. Ento, carregou a caixa  varanda dos fundos e a deixou sobre a mquina de lavar roupas. Mais tarde se livraria do presente inconveniente. Com um brilho no olhar, imaginou se os animais gostariam de uma decorao de Natal no celeiro...
s cinco horas da tarde, o furgo da floricultura voltou, desta vez com duas dzias de rosas de cabo longo, os botes mais perfeitos que Mary Jane j vira. No havia carto, mas sabia de quem eram. Como j pedira desculpas, ele no vira necessidade de outro bilhete.
Mary Jane sentiu-se fraquejar e sorveu o perfume das flores em pleno dezembro, algo que no se lembrava de ter feito antes.
A guirlanda era para a casa. As ro'sas, para ela, lindas de morrer!
Mesmo assim, decidiu que no as arrumaria no vaso nem as colocaria sobre o piano, por mais que fossem enfeitar a sala. Com um aperto no corao, levou a caixa para a varanda dos fundos e a deixou ao lado da guirlanda. No daria as rosas para o gado, mas se livraria delas, de qualquer forma. No aceitaria nenhum presente daquele homem horrvel.
Determinada, fechou a porta e foi para a cozinha, pronta para receber a famlia. Shannon ligou pouco depois para dizer que estava com gripe e no compareceria com o marido  reunio marcada. Mary Jane lhe fez recomendaes e desligou. Em seguida, Becca e Clay chegaram com as crianas e, logo depois, Brittnie e Jared, com o av dele, Roberto, e uma tia de Hal, Katrina. Os dois idosos saam juntos havia quase um ano, e Mary Jane no se surpreenderia se eles resolvessem se casar. Eram representantes legtimos da terceira idade, mas isso no os impedia de aproveitar a vida. Em poucos minutos, a casa foi tomada de canes natalinas, conversas paralelas e reclamaes de Brittnie e Becca sobre a quantidade de enfeites de Natal da me.
	Espere para ver sua coleo aps trinta anos  rebatera Mary Jane, bem-humorada.
Em meio  algazarra, Mary Jane ouviu uma leve batida na porta e franziu o cenho.
	Espero que no seja Shannon, ela est gripada...  comentou, a caminho da porta.  Devia ficar na cama e... 	Emudeceu ao ver quem era o visitante.  Garrett?
Ele estava na varanda com o chapu preto na mo e uma caixa quadrada enorme sob o brao. Parecia grande, sinistro e perigoso, mas, no obstante, constrangido. Ele a encarou sob a iluminao fraca.
	Vim pedir desculpas pessoalmente, j que a guirlanda  e as rosas no surtiram efeito.
	Garrett, no  necessrio...
Ele ergueu a mo.
	Na verdade,  pouco para compens-la pelo que eu disse.  Meneou a cabea e expressou arrependimento, como se ainda no acreditasse.  No sei por que disse aquelas coisas. Eu...  Interrompeu-se ao olhar alm dela e perceber que havia pessoas na sala.  Desculpe-me. Interrompi sua festa. Vi os carros, mas queria lhe dar isto...
	Fitou-a detidamente, e ela notou seu olhar de desejo.
	O que ?
	Me, quem ?  indagou Brittnie, l de dentro. Convide a entrar e feche a porta.
	Claro!  concordou Mary Jane, concluindo que o arrependimento era genuno, mas tambm estava magoada.
Apesar disso, considerando que era Natal, no podia abrandar o corao e incluir Garrett na reunio familiar? Podia
colocar as preocupaes e temores de lado por uma hora, certo? Ainda mais porque Shannon no estava presente.  Por favor, entre e junte-se a ns, Garrett.
Ele hesitou.
	No sei se  uma boa ideia...
	Por favor  insistiu Mary Jane. Ambos tinham sido desagradveis um com o outro e mereciam a oportunidade de se redimirem.
Garrett percebeu o pedido de desculpa embutido no convite e entrou carregando a caixa.
	Obrigado.
Assim que Garrett entrou, o silncio tomou conta da sala e a famlia toda olhou para ele. Mary Jane repetiu os nomes das filhas e genros, embora j o tivessem conhecido no funeral. Ento, apresentou Roberto e Katrina, e seu netinho Jimmy, de sete anos.
	 um presente?  O menino apontou para a caixa. 	Para quem?
	Para Mary Jane.  Garrett finalmente entregou-lhe a caixa. Despiu o casaco, tirou o chapu e os pendurou no mancebo junto  porta.
Mary Jane recebeu a caixa desajeitadamente, com uma mo na tampa e a outra no fundo. Para ela? Tinha a sensao de que no eram flores...
	No est embrulhado  ralhou Jimmy.  Voc devia embrulhar os presentes...
	Jimmy!  censurou Becca, aproximando-se do filho. 	No seja rude.
O menino revirou os olhos.
	Bem, que tipo de camarada traz um presente sem embrulhar? Voc me fez embrulhar o meu.
	Tem razo, meu jovem  reconheceu Garrett.  No tive tempo de embrulhar, e no sou muito bom nisso, de qualquer forma. Alm disso, eu queria que Mary Jane o vestisse esta noite.
	Vestisse...  Mary Jane arregalou os olhos.  Oh, Garrett, voc no comprou...
	Abra e veja.  Ele enfiou as mos nos bolsos traseiros e balanou-se no salto das botas enquanto a observava.  Por favor.
Mary Jane viu o sorriso nos lbios dele. Exceto pela neta Christina, ainda beb, que mordiscava um Papai Noel de plstico, todos a olhavam curiosos. Riu constrangida, instalou a caixa numa cadeira, removeu o fecho e afastou as folhas de papel de seda. Como desconfiava, era o vestido de veludo azul. Quando o tirou da caixa, as mulheres presentes emitiram um som de espanto e admirao, enquanto os homens lanavam olhares especuladores ao visitante.
	Oh, Garrett, no devia ter feito isso!  demais...  Era totalmente inadequado ele lhe dar um presente desses. Ambos sabiam disso. A famlia sabia, e provavelmente imaginava os motivos a justificar um presente to caro:
	Eu lhe devo um, lembra-se?  provocou Garrett, a voz grave reverberando pela casa, enquanto os presentes assistiam ao drama maravilhados.
	Por que estaria me devendo um vestido?
Garrett estreitou o olhar.
	Por causa daquele que eu rasguei na escola.
Os presentes prenderam a respirao. Becca levantou-se e pegou a filha que brincava no cho.
	Brittnie, tia Kat, por que no vamos ver se h servio na cozinha?
A velha tia resmungou:
	Agora que est ficando interessante?
Becca e Brittnie pegaram a velha senhora cada uma por um brao e a arrastaram da sala.
	Clay, Jared, Roberto, por que no saem para pegar a rvore de Natal?  sugeriu Becca, do corredor.  Est num barril de gua l nos fundos.
	Mas os trs precisam ir?  Clay engoliu em seco sob o olhar fulminante da esposa.
	Precisam, e leve Jimmy com voc!  As mulheres sumiram na cozinha. Os homens saram em seguida. Em segundos, a sala ficou vazia.
Mary Jane encarou Garrett.
	Voc grita "fogo" num teatro lotado?
Garrett sorria sem arrependimento.
	Ora, no fiz de propsito. Eu disse a verdade. Rasguei seu vestido e nunca o substitu, lembra-se?
	Sim, eu me lembro.  Mary Jane fitou o vestido e passou a mo pela superfcie macia do veludo.
Acontecera num jogo de basquete no ltimo ano. Garrett machucara o ombro e no estava jogando, mas comparecera ao ginsio. Na arquibancada, ria com os amigos, como fazem os rapazes de dezessete anos para impressionar as garotas. Ao empurrar um colega, pisou na barra do vestido de Mary Jane, no instante em que ela se virava para evit-lo. Foi um rasgo enorme.
Humilhada, ela correra ao toalete para tentar reparar o dano, mas no houve jeito. Foi para casa segurando as partes da saia, em prantos, porque ela gostava de Garrett desde que chegara a Tarrant e ele nunca lhe dera a menor ateno.
	Eu a procurei no dia seguinte e me ofereci para pagar pelo vestido, mas voc no aceitou. Ento, eu a convidei para sair.
Ela no precisava recordar. Mary Jane lembrava-se de tudo muito bem. Deram uma volta na caminhonete dele, e conversaram. Garrett j a lembrara dessa parte, e ela no queria pensar naquilo. Era passado e no importava mais. O que importava agora era aquele lindo vestido azul.
	Obrigada  murmurou, o olhar brilhante.  Vou vesti-lo.  Com uma risada constrangida, indicou a sala.  Sinta-se em casa. Ns amos comear a decorao da rvore. Voc sabe instalar lampadinhas?
Garrett coou o queixo.
	Nunca fiz isso. Se as lampadinhas ficarem embaraadas, mandarei um novo jogo para vocs.
	Bem, est prestes a aprender uma nova habilidade, parceiro. Elas esto na caixa marcada "lmpadas".  Mary Jane tomou o corredor para o quarto ouvindo a risada suave dele.
No podia aceitar o vestido, sabia disso, mas no resistira. Continuava to lindo quanto se lembrava dele ao prov-lo pela manh. Vestiu o modelo e procurou um par de sapatos pretos. No satisfeita, arrumou os cabelos, refez a maquia-gem e usou os brincos e o colar de prolas.
Mary Jane respirou fundo, convenceu-se de que no era velha demais para tais tolices e voltou para a sala.
Katrina tambm retornava com uma torta de abbora, creme de leite batido, pratos e talheres. Os homens acabavam de instalar a rvore. Todos se voltaram para v-la no vestido novo. Mary Jane odiava ser o centro das atenes, mas aceitou os elogios e encarou Garrett. Ele sorriu to doce e to triste que ela sentiu dor no corao. Desejou ir at ele e abra-lo, agradecer pelo vestido e dizer o quanto lamentava... o rumo que as coisas haviam tomado, mas no fez nada disso. Sorriu e assentiu, pois bastava para aliviar a tenso.
	Ei, por que estas flores esto nos fundos?  indagou Brittnie, com a caixa de rosas.
	E isto?  indagou Becca, mostrando a guirlanda.
Antes que Mary Jane respondesse, elas passaram a admirar o vestido. Trocaram olhares curiosos, mas a me decidiu responder somente s perguntas verbalizadas.
	Oh, eu s tentava mante-las frescas at todos chegarem.  Mary Jane olhou para Garrett. Ele sabia por que as caixas estavam nos fundos, mas, sem se abalar, voltou a desembaraar os fios e as lampadinhas.
Brittnie e Becca arrumaram as rosas em um vaso e comearam a separar os enfeites para a rvore.
	Ugh, me, isto  lamentvel!  Brittnie ergueu um punhado de farelo verde que encontrou no fundo da caixa.
 O que ?
	Para sua informao,  uma guirlanda de tinta e cereais que voc fez no jardim-de-infncia.
	E voc o guardou todos esses anos?
	Voc o fez para mim.  Mary Jane ao ver a filha revirar os olhos.  No se importe, querida, vai entender um dia, quando tiver filhos.
	Isso vai demorar um pouco  murmurou Brittnie, e sorriu para o marido. Em plena lua-de-mel, no estavam prontos para comear uma famlia ainda.
No outro lado da sala, o av de Jared suspirou teatralmente. Estava ansioso por um bisneto.
Mary Jane riu e ento sentiu o escrutnio de Garrett. Ele a observava com um toque de tristeza no olhar. Ela se sentiu culpada. Garrett no tinha filhos e no via netos no futuro. Imaginava se alguma vez participara de uma reunio barulhenta e feliz como aquela, a menos que tivesse amigos em Albuquerque que o inclussem nas festividades familiares.
Passou a mo na saia do vestido novo e sorriu insegura. No queria pensar que agira de forma desonesta. Partilhava sua famlia com ele naquela noite. Isso devia bastar para acalmar sua conscincia, no?

CAPITULO VII

	Me, est acontecendo algo entre .voc e o sr. Blackhawk?  indagou Brittnie, quando as duas estavam sozinhas na cozinha.  Porque, se no h, deveria haver.
Atnita, Mary Jane voltou-se da geladeira com um prato contendo meia torta de abbora.
	Como?  O prato quase virou, e o equilibrou com as duas mos.
	No tente disfarar  censurou a filha.  Acho que seria bom para voc... sair com algum, e ele parece ser interessante.  Riu.  E, ainda por cima,  rico.
	Brittnie! No sabe do que est falando.  Mary Jane se voltou para a geladeira e fingiu arrumar os itens l dentro, para recuperar o controle. No era todo dia que se ganhava de um homem um vestido de presente. Bastara para a famlia ter ideias... as quais pretendia rechaar o mais rpido possvel. Foi  pia, pegou um pano e comeou a limpar o balco.
	Sei mais do que pensa  insistiu a filha.  Sei que ele gosta muito de voc. Muito.
	No seja ridcula  respondeu Mary Jane, e continuou limpando o balco.
	Me, ele lhe comprou um vestido  observou Brittnie. Aproximou-se da me e a fez cessar a limpeza obsessiva.
	No por motivos romnticos, eu lhe asseguro  assegurou Mary Jane, tensa.  Acredite, ele no gosta tanto de mim como parece.
	Ento, por que ele olha tanto para voc?
Ele olha? Mary Jane contraiu os lbios. Isso era novidade.
	Talvez por no acreditar que uma mulher bonita como eu possa ter uma filha com imaginao to frtil  retrucou, amuada.
Brittnie deu risada.
	Imaginao frtil? S porque acho que deve comear a sair com um homem gentil? Me, voc precisa sair mais, desenvolver algum tipo de vida social.
	Eu tenho uma vida social  protestou Mary Jane. Largou o pano e fitou a filha. No sabia como Garrett conseguia convencer a todos de que era "gentil", mas com certeza o adjetivo no se lhe aplicava.
	Sim, voc tem uma vida social.  Brittnie ergueu as mos.  Conversa com as vacas, com os grilos...
	No seja tola. Sabe que estou sempre ocupada e no preciso que me diga quando for hora de...
A porta se abriu e Becca entrou, seguida por Katrina. Ao v-las to srias, estacaram.
	O que est acontecendo?  indagou Becca.
Brittnie cruzou os braos e se ps ao lado da irm.
	Estou tentando convencer mame de que ela precisa comear a sair. Na vedade, devia comear a sair com o sr. Blackhawk.
	E eu estou dizendo a sua irm para se meter com a prpria vida  respondeu Mary Jane, azeda.
	 uma grande ideia!  Becca olhou para Katrina, que se alinhou s jovens.
Mary Jane alegrou-se.
	Isso mesmo. Brittnie no devia meter o nariz onde... No, no, no.  Becca agitou as mos.  Quero dizer  uma grande ideia voc comear a sair, principalmente com o sr. Blackhawk. Ele  muito gentil. 
L estava o adjetivo inadequado novamente.
	Ouam. No sei se "gentil"  a palavra certa para descrever...
	Vi Frank Kress na cidade hoje, e ele disse que Garrett se ofereceu para comprar um equipamento para o hospital e montar uma nova sala de espera, com mveis confortveis. Isto j basta para ele merecer a nossa admirao  justificou Becca. Em vrias ocasies, j passara naquela sala de espera.  Alm disso, ele gosta de voc.
	Foi o que eu disse  reforou Brittnie, animada com o apoio.
Mary Jane fitou-as. O que estava acontecendo? Nunca imaginara que a famlia tivesse tais preocupaes a seu respeito. Sair? Com Garrett? No, no podia. No queria nem pensar nas implicaes.
	No. No estou pronta para comear a sair.
As filhas se entreolharam e Brittnie manifestou-se:
	Me, j faz quatro anos que papai morreu. Nesse tem po, voc nunca saiu com outro homem.
	No sinto necessidade de sair.
	Toda mulher precisa sair com um homem bonito, querida  aconselhou Katrina.
Brittnie relembrou:
	Esteve em Denver uma vez para um jogo de beisebol com Ben e Timmy, e isso s porque eles so seus sobrinhos e tinham entradas para o jogo. Foi trs vezes a Albuquerque para exames de rotina... que deixou atrasar agora, alis. Nunca sai para se divertir. S o que fez nesses ltimos quatro anos foi trabalhar na fazenda.
	Que  sua herana, alis  lembrou Mary Jane.
	Sabemos disso  replicou Becca.  Mas no tem de se matar para preservar a fazenda para ns e nossos filhos. Voc precisa se distrair.
	Elas esto certas  reforou Katrina.  Eu no comentei nada at agora. Sabe como  difcil para mim ficar calada, mas garanto que a famlia Kelleher no espera que se mate para manter a fazenda. Claro, a propriedade est na famlia h quase cem anos, mas ningum quer trabalhar nela, portanto, no protestaramos se resolvesse vend-la para ir morar na cidade. Nem Hal iria querer que mantivesse a fazenda  custa de sua sade.
Mary Jane olhou para cada uma das mulheres. Sabia que todos se preocupavam com sua sade, mas nunca ningum fora to explcito.
	Bem, ouvi todas as opinies, mas poderiam ter escolhido uma hora melhor para tocar no assunto que no uma festa de Natal familiar.
Com isso, foi para a sala, onde os homens j haviam instalado a rvore e as lmpadas. Garrett ligou o ltimo trecho de fios, e a rvore brilhou com as luzes coloridas. A pequena Christina bateu palmas e balbuciou de alegria, enquanto Jimmy pulava, ansioso para colocar a estrela no topo da rvore.
Zangada e perturbada, Mary Jane pegou uma caixa de enfeites e ps-se e decorar a rvore, sem considerar nenhuma ordem ou esttica.
Apesar de tudo, tinha de admitir que as filhas e Katrina estavam certas quanto a sua falta de vida social. Mas isso no significava que gostaria de sair com Garrett. Supondo que ele a convidasse, claro. Sabia que ele no gostava dela tanto quanto demonstrava. Provavelmente, as trs continuavam conspirando e planejando na cozinha. Precisava alertar Garrett sobre um possvel ardil. Sem dvida, ele acharia a situao to absurda quanto ela.
Ergueu o olhar e viu Garrett observando-a.
	Voc est bem?  indagou ele.
	Sim.  Ela respirou fundo.  Voc pode ficar um pouco depois que os outros forem embora? Preciso conversar com voc.
	Claro  respondeu ele, avaliando sua expresso.  Claro que posso.
Como ela esperava, Kat, Brittnie e Becca logo apareceram na sala para ajudar na decorao. No a pressionaram mais, considerando a presena dos homens, mas no pareciam arrependidas. Quando a rvore ficou pronta, as crianas j estavam sonolentas e Becca e Clay as levaram embora. Os demais despediram-se pouco depois. Brittnie deteve-se  porta para abraar a me, sussurrando:
	No se esquea do que eu disse. O sr. Blackhawk  um homem gentil.
	No se esquea do que eu disse  respondeu Mary Jane, dando-lhe um puxo de orelha.  No  da sua conta e tenho outra novidade: est grande demais para levar uma surra.
Mary Jane esperou na varanda at o carro se afastar. Respirou fundo o ar fresco e voltou-se para enfrentar Garrett na sala.
	Acho que nunca vi uma casa com tantas decoraes de Natal  comentou ele, pasmo.
	 ridculo, no ?  Mary Jane olhou ao redor, atnita.  E compro mais a cada ano. Hal costumava dizer que eu...  Contendo-se, desviou o olhar, lembrando-se da conversa naquela manh e da acusao de que ela usava o casaco de Hal para se lembrar de que ele estava morto e, portanto, no devia mais sair e se divertir.
	O qu?  incentivou Garrett.  O que ele costumava dizer?
Mary Jane recordou que Garrett j lhe pedira desculpas. 
	Que eu era uma sentimental incorrigvel em relao ao Natal. Ele me provocava, mas eu no me importava. Hal sabia que eu tentava compensar os Natais que perdi quando criana.
	Por causa do problema de seu pai com o lcool.
	Sim. Ele arruinava o feriado todos os anos. Nunca tivemos uma ceia de Natal que ele no destrusse por causa da bebida.  Ela o fitou.  Nunca pensei nisso antes, mas acho que os seus Natais no foram muito diferentes dos meus.
	No, no foram. Gus no bebia, mas passou a no gostar das festas de fim de ano aps a morte da minha me. Resmungava dos presentes, das decoraes e at da rvore. Melhorou quando Ruth veio trabalhar para ns, porque ela fazia questo de comemorar, mas estava longe de ser a "estao das boas festas", como desejavam os cartes que recebamos.
	Lamento  murmurou Mary Jane. Precisou se controlar para no confort-lo com uma carcia no rosto.
	Isso  passado  conformou-se Garrett.  Espera-se que um homem da minha idade j tenha superado tudo isso.
	Acho que nunca se supera a perda do que poderia ter sido  comentou Mary Jane, e baixou o olhar. Ele pensava no que poderia ter acontecido entre eles? Talvez. Ela pensava mais e mais nisso ultimamente. Para salvar o momento, ergueu as mos e sorriu.  Por isso, acabamos com uma casa cheia de decoraes de Natal.
Garrett assentiu, mas no respondeu  tentativa de amenizar o clima.
Um silncio constrangedor pairou entre eles. Mary Jane no sabia o que fazer. Garrett retomou uma tarefa, enquanto ela passava a montar um arranjo com pinhas que recolhera no quintal e pintara com spray dourado.
	Acho que a forma como decora a casa faz diferena se ela lhe pertence  comentou Garrett.
Ela se voltou e viu que ele a observava. No estava propriamente perto, mas ela se sentiu pressionada. Levantou-se para levar o arranjo ao aparador da lareira.
	O que quer dizer?
	A minha casa no fica assim. Eu contrato uma firma para decorar a empresa, pois a festa de Natal dos funcionrios acontece l. Mas nunca fica assim. A decorao  bonita, mas no tem alma.
Mary Jane sentiu-se desconfortvel.
	Por que pediu qu eu ficasse?  indagou Garrett.  Achou que eu ia me castigar com brasa pelo que lhe disse esta manh?
Ela sorriu triste.
	No, voc j pediu desculpas.  E pensara o dia todo que talvez ele estivesse certo. Talvez fosse hora de parar de usar o velho casaco de Hal, presa ao passado. No que estivesse pronta para sair com homens, como as filhas sugeriam.
	Eu... queria alert-lo. Minhas filhas acham que voc e eu...
Ele ergueu o sobrolho.
	Voc e eu...?
Mary Jane revirou os olhos.
	Devamos sair  completou.  Elas acham que h algo entre ns.
	 mesmo?  Ele riu, mas ento ficou pensativo.  Elas sabem que namoramos no tempo da escola?
Haviam feito muito mais que namorar, mas Mary Jane no tocaria no assunto.
	No.
Ele assentiu.
	Pensam que o pai foi seu nico amor.
	.
	Gosto da ideia.
Mary Jane assustou-se.
	De que devamos comear a sair?
	.  Garrett sorriu.  Por que no?
Ela levou as mos aos quadris.
	Porque no gostamos mais um do outro, e tambm porque estamos velhos demais para namorar.
	 a que se engana.  Ele a tocou na ponta do nariz.  Eu gosto muito de voc. At j andamos nos trombando desde que voltei... exceto por aquele beijo no funeral. Gostei muito daquilo...
Mary Jane enrubesceu, mas manteve o olhar firme. No iria demonstrar reao  lembrana, embora sentisse o corpo se aquecendo.
	E as pessoas nunca so velhas demais para sair, namorar, procurar algum para... acompanhar.
Mary Jane imaginou se ele ia dizer "algum para amar". Para os dois, era tarde demais. E, se lhe contasse sobre Shannon quela altura, com certeza no haveria nenhum amor entre ambos.
	Oh, realmente no acho uma boa ideia.  Mary Jane sentia um n na garganta de to apreensiva. Tratava-se de um risco que, com certeza, no podia assumir.  Alm disso, voc nem vai ficar por aqui tanto tempo. Assim que acertar a documentao da fazenda do seu pai, voltar para Albuquerque.  Mal disfarou o tremor  ideia.
Cus, o que estava acontecendo? Planejara aquela cena com tanto cuidado, com tanta lgica... Ela contando a ele o que suas filhas pensavam, ele desdenhando, ambos rindo de tudo, e a partida dele.
	Melhor assim, no acha?  Ele estendeu a mo virada para cima, a imagem perfeita de um homem racional, mas havia um toque travesso no sorriso.  Quando eu me for, elas pensaro que voc est desistindo e a deixaro em paz.
	Desistindo?  O olhar dela brilhou.  Posso ter feito isso aos dezessete anos, mas... mas no desisti  concluiu, lamentavelmente. Ele estreitou o olhar, uma indicao de que ela falara demais.  E no conhece a minha famlia se acha que vo me deixar em paz. Elas nunca desistem quando comeam.
Garrett ficou srio e apoiou um cotovelo contra o aparador da lareira. O fogo baixo lanava um brilho alaranjado em seu rosto.
	Qual  o problema, MarJay?
Ela cobriu o rosto com a mo.
	Eu gostaria que no me chamasse assim.
	Por que no?  Ele no pareceu surpreso. O tom incentivava  honestidade.  Porque voltei aps tantos anos? Porque isso a faz infeliz? Porque isso a faz se lembrar de pocas mais felizes? Ou porque isso a lembra de que um dia me quis tanto quanto eu a quis? Ou porque isso a faz pensar no beijo que lhe dei aps o funeral?
Ela soltou os braps ao longo do corpo, esquivando-se de todas aquelas indagaes.
	Aquilo foi totalmente inadequado  protestou.
	No, no foi.  Ele se aproximou.  Aquilo nos ajudou. Na verdade, acho que, se a beijasse agora, voc concluiria que sair comigo  uma boa ideia.
Mary Jane o fitou alarmada.
	No.  Ergueu a mo para impedi-lo.
Garrett simplesmente envolveu-lhe a mo com a sua. 
	Mary Jane, no sei o que est acontecendo entre ns, mas essa animosidade e irritao no vo nos levar a lugar algum. Parece que voc no quer lidar com o passado, nem com o futuro, ento, por que no lidamos s com o presente? O aqui e agora?
No era uma pergunta de fato. Garrett no lhe deu tempo para reagir, simplesmente a beijou. Mary Jane quis afast-lo, mas ento sentiu os msculos sob a flanela da camisa e relaxou.
O desejo permeou-lhe o corpo. O ltimo beijo fora uma tentao, aquele era a finalizao. Garrett tinha o mesmo sabor de que ela se lembrava de anos antes, de meses antes... ardente, vivo e faminto. Ele a beijou repetidas vezes, impedindo-a de pensar, de manter sua determinao, prometendo-lhe algo que no podia dar. Um futuro.
	No concorda, Mary Jane?
Ela suspirou.
	Com o qu?
	Que devamos lidar s com o presente? Vamos enterrar o passado e deixar que o futuro simplesmente acontea.  Garrett a beijou novamente e ento afastou-a, atentos aos olhos brilhantes.  No acha que ganhamos esse tempo para fazermos o que quisermos? No somos mais um casal de garotos que tm de pedir a permisso de algum.
Garrett a confundia. Mary Jane piscou. No acabara de afirmar que no permitiria que as filhas lhe dissessem o que fazer, com quem sair? Fitou os lbios carnudos dele. Beij-lo? No. Tentou se concentrar. De algum modo, tudo ficara confuso porque o que ele lhe oferecia era cada vez mais atraente.
	Sim  respondeu, insegura.  Acho que sim.
Ele sorriu satisfeito, triunfante.
	timo. Aonde voc quer ir? O que quer fazer?
Mary Jane engoliu em seco. Oh, socorro! Concordara? Precisava pensar, ficar sozinha, refletir sobre o que havia feito.
	Para a cama  respondeu, e riu.
	Bem  avaliou ele.  Se tem certeza, mas acho que estamos pulando vrias etapas.
Mary Jane recuou.
	Ora, espertinho, no foi isso que eu quis dizer.
Garrett sorriu.
	Eu sei, mas sempre foi divertido provoc-la... no resisti.
	Muito engraado. 
	No vai voltar atrs na promessa, vai? No logo aps se comprometer?
	No, claro que no.  Na verdade, Mary Jane apreciava a ideia de sair com Garrett.  Quando... quando iremos? E aonde?
	Amanh  noite, a Durango.  Garrett passou ao vestbulo, pegou o chapu e o casaco. Voltou-se e sorriu irresistvel.  E use o vestido.
Rindo, ela o acompanhou  varanda.
	Est bem, usarei. Mas estou avisando, adorei o vestido e vou us-lo sempre, at voc ficar cansado de v-lo.
	Acho que isso no vai acontecer.  Ele dirigiu-se ao carro e avisou a que horas passaria para busc-la.  Tenho uma reunio  tarde, mas acho que no vou sair tarde.
	Uma reunio?
	Com sua filha Shannon. Ela vir para me contar sobre a recuperao das terras da fazenda.
Mary Jane paralisou-se, enregelada. Shannon. Como pudera esquecer seu motivo para manter-se afastada dele?
	Ela est doente!  avisou, tentando controlar o pnico.  Por isso, no veio aqui hoje.
	Oh, entendo.  Garrett se deteve e franziu o cenho, pensativo.  Lamento em saber. Tenho certeza de que a secretria vai ligar para remarcar a reunio.
	Ou podem mandar outra pessoa.  Mary Jane preferia  essa hiptese.
	Vou esperar at ela melhorar  decidiu ele.  Prefiro tratar com a chefia.  Acenou, entrou no carro e partiu.
	Claro que ele prefere lidar com a chefia  murmurou Mary Jane, os ombros cados.  O problema era que a chefia se representava pela filha que tinham tido, sobre a qual no queria que ele soubesse.
Trmula, ergueu a mo e afastou os cabelos do rosto. Como um autmato, voltou-se e entrou em casa. Sentia que perdera o controle da situao.
Garrett dirigiu para casa sentindo que finalmente fizera algum progresso para se aproximar de Mary Jane. Sua secretria diria que a briga que tiveram pela manh fora resultado de sua tendncia controladora. De que adiantava ser o chefe se no se podia ter as coisas a seu modo?
Entretanto, Mary Jane desafiava todas as suas tentativas de controlar qualquer aspecto daquela situao, mostrando-lhe que ele no era o chefe. Ainda no sabia por que ela agia de forma superprotetora em relao s filhas, desconversando, esquivando-se, embora o beijasse com calor bastante para derreter a primeira nevada.
Ela evitava falar do passado com tal graa que merecia um prmio. E no lhe respondera por que se casara to repentinamente com Hal. Imaginava se um dia conseguiria que ela falasse no assunto.
Aps o desentendimento na rua pela manh, no entendia como ela ainda o convidara a participar da reunio familiar em casa, mas sentia-se grato. Divertira-se ajudando o pessoal a montar o cenrio natalino, vendo o amor que os unia. Mesmo os conflitos e discusses ocasionais foram interessantes, pois retratava a dinmica de uma famlia de verdade.
Garrett entrou na estrada que levava a sua fazenda e fitou a casa escura. Esquecera-se de deixar a luz da varanda acesa e no havia nenhum calor para recepcion-lo, pois I Ruth fora para sua casinha em Tarrant.
Conformara-se com sua vida de solteiro havia muito, acos-I tumara-se  falta de vida familiar. Trabalhando com afinco, raramente deixava que isso o aborrecesse, mas algo na casa I de Mary Jane fizera sua solido se evidenciar.
Queria o que a famlia Kelleher tinha... pessoas, crianas, conflitos, amor mtuo. Na verdade, queria a famlia Kelleher para si. Acima de tudo, queria Mary Jane, apesar de ela mant-lo a distncia.
Felizmente, descobrira uma brecha na armadura da mulher e, a comear na noite seguinte, tiraria proveito dela. Vinte e oito anos podiam ser recuperados, sim, e havia um futuro para os dois, se convencesse Mary Jane disso.
Em algum lugar tambm, naquele futuro, estavam as respostas que queria dela... as quais conseguiria, de um modo ou de outro.
CAPITULO VIII

Garrett telefonou no dia seguinte para lhe contar que Shannon adiara a reunio por uma semana e tambm para confirmar que passaria em sua casa s seis horas para o passeio a Durango. Mary Jane suspirou de alvio ao saber que ele no se encontraria com Shannon, embora continuasse preocupada por viver naquela corda bamba. Podia ter cancelado o compromisso com Garrett alegando ter de cuidar da filha gripada, mas Luke estava cuidando de Shannon e ela provavelmente no precisava da me.
Sentindo-se culpada, Mary Jane tentou preparar o esprito para se divertir. Como Garrett pedira, usou o vestido de veludo azul, ainda atnita por ter aceitado o presente. Adorara o vestido, no se lembrava de alguma vez possuir nada to lindo. O olhar de Garrett ao subir os degraus da varanda fez eco a sua impresso.
	Voc est maravilhosa  elogiou ele.  O vestido caiu mesmo bem, no?  Sorriu to bonito e charmoso que Mary Jane chegou a sentir um aperto no corao.
	 lindo  concordou, sorrindo.  Perfeito. Obrigada mais uma vez.  Ps-se de lado.  Quer entrar?
Ele meneou a cabea.
	Reservei mesa para as sete horas,  melhor irmos.
Mary Jane percebeu que ele se indagava qual casaco ela vestiria. Para provoc-lo, tirou o casaco velho do armrio, o olhar brilhando de divertimento.
	Este serve?
	Ah, bem... no sou crtico de moda, mas...  Garrett olhou-a desconfiado.  Por que no cala as botas tambm?
Rindo, ela guardou o velho casaco de Hal e pegou um de l preto que usava em ocasies especiais.
	Este est melhor?  Voltou-se para que ele a ajudasse a vestir o casaco.
	Est timo. Sabe, talvez eu deva lhe comprar um casaco de pele tambm  considerou ele. Aps ajud-la a vestir a pea, manteve as mos em seus ombros.
	No se atreva. Se fizer isso, minha famlia vai achar que estamos mesmo namorando.
Garrett lhe apertou os ombros e sussurrou ao ouvido.
	E isso seria to ruim?
Mary Jane estremeceu  carcia do hlito quente dele em sua pele. Como ele conseguia uma sentena simples parecer to convidativa e ao mesmo tempo to imprpria?
Desajeitadamente, alojou os botes nas casas.
	Bem... acho um pouco prematuro, no acha?  desconversou. Desvencilhando-se dele, pegou a bolsa.
Sorrindo, Garrett assentiu ao casaco velho.
	Voc deu o troco, no foi?
	E no foi to engraado  respondeu ela, erguendo o queixo, orgulhosa, mas sorriu.
A tenso diminuiu e eles riram juntos. Mary Jane trancou a casa e partiram para Durango. No caminho, Garrett perguntou-lhe sobre a famlia e ela contou orgulhosa todas as realizaes das filhas.
	Eu devia parar de me gabar delas. Deve ser maante para quem ouve.
	Imagine  retrucou Garrett.  Adoro ouvir sobre elas.
Mesmo assim, estava na hora de mudar de assunto.
	E voc, Garrett? Por que nunca se casou?
Como as conversas que j haviam tido sobre o assunto no foram agradveis, Mary Jane hesitava em retom-lo, mas no continha a curiosidade.
Garrett no desviou o olhar da estrada, mas ela percebeu que ele passou a segurar o volante com mais fora.
	Sei que conversamos sobre nos casar, mas eu estava muito confuso quando voltei do Vietn, assim, acho que provavelmente foi bom voc ter se casado com Hal. Meu pai achou que eu voltaria e retomaria de onde havia parado, como empregado dele.
	Mas voc no queria?  Mesmo fazendo a pergunta, Mary Jane pensou na carta que ele lhe escrevera, cujo contedo no combinava com o que ele contava naquele momento.
Garrett parecia atormentado por lembranas.
	Aps um ano pendurado num helicptero, dando cobertura a meus companheiros e tentando abater inimigos que atiravam de todos os lados, trabalhar para meu pai cuidando de gado parecia muito montono... no que as brigas dirias com Gus no fossem uma guerra  parte.
	Lamento  murmurou Mary Jane, franca.
Sim, ele a abandonara, mas quando se encontrava numa fase muito difcil. Talvez por isso nunca tivesse respondido a suas cartas. Embora ainda estivesse no treinamento, ele j imaginava como seria difcil a readaptao na volta do Vietn e no quisera envolv-la. Era uma possibilidade remota, mas ela podia quase se convencer da hiptese.
Ansiava por perguntar por que ele nunca respondera a suas cartas, mas continha-se. E se ele perguntasse por que ela tentara entrar em contato durante o treinamento, sabendo que correspondncias no eram permitidas exceto, em emergncias familiares?
Era melhor deixar como estava.
	So guas passadas  definiu Garrett, dando de ombros.  Mudei-me para Albuquerque, fui para a faculdade, arranjei um emprego. No havia tempo para encontrar uma esposa.  Sorriu.  Como se casou praticamente ao sair do bero, no imagina como  o jogo de encontros nesse mundo afora. Leva tempo e exige ateno, e eu estava ocupado demais para me dedicar a isso. Mas confesso que me surpreendi quando acordei no dia do meu quadragsimo aniversrio e percebi que no tinha tantas provas de realizao de vida quanto imaginava.
Garrett se menosprezava, e Mary Jane sentiu o impacto de saber disso. Ele tinha mais do que imaginava, mas ela no podia lhe revelar o qu. Deu uma resposta fraca e mudou de assunto. Os ex-colegas de escola eram um tpico seguro, ao qual se ativeram durante o resto do trajeto e em boa parte da noite.
Saborearam o jantar recordando o passado, porm evitando fatos pessoais. Mary Jane relaxou e decidiu que aquela noite fora a mais agradvel que tivera em anos.
O tempo todo, porm, Mary Jane pensou no que ele dissera sobre famlia. Agora, sabia que ele lamentava no ter formado uma, que lamentava a falta de filhos.
Passara semanas esquivando-se, decidida a no revelar a origem de Shannon, mas concluiu que teria de faz-lo. Garrett tinha o direito de saber.
De soslaio, observando o perfil dele enquanto dirigia de volta para Tarrant, viu que se tratava de um homem forte e determinado. Garrett tinha o direito de saber sobre a filha e Shannon tambm devia saber sobre ele. Ento, era aguardar as reaes. Logo aps o Natal, num momento que considerasse adequado, contaria a ele a verdade sobre Shannon. Era o correto a fazer.
Naquela semana, Shannon passou na casa da me aps ir  fazenda de Garrett e anunciou que ela e o marido dariam uma festa de Natal.
	Luke finalmente acabou a reforma do trreo e quer mostrar a todos. Voc est convidada, claro, e convidei Garrett tambm.
Mary Jane sentiu como se o cho lhe faltasse de sob os ps. Ento perguntou:
	Convidou?
	Sim, mas no falei muito com ele hoje. Aps fazer a avaliao das terras, voltei para a casa, mas ele estava no telefone. Terei de voltar depois com o meu relatrio.
Mary Jane experimentou alvio, mas, a seguir, repreendeu-se. Estava saindo com Garrett, mas no o queria perto da filha. Embora tivesse uma boa justificativa, sentia-se hipcrita. Uma festa na casa de Shannon, com muita gente, poderia ser at conveniente. Shannon estaria ocupada entretendo os convidados, sem tempo para prestar ateno em Garrett. Discreta, passou a ouvir os planos da filha para a festa enquanto servia o caf.
Shannon acrescentou creme  bebida e tomou um gole.
	No est com um gosto estranho? Talvez o creme tenha azedado.
Mary Jane experimentou o creme.
	No. Para mim est timo.  Tomou um gole de caf enquanto observava a filha.  Est se sentindo bem? Ainda no se recuperou da gripe...
	Estou bem hoje  afirmou Shannon.  Mas tem acontecido vrias vezes nas ltimas duas semanas. Sinto-me mal  tarde, mas na hora de dormir j estou bem de novo. Ento, o dia seguinte  uma maravilha at as seis horas, quando tudo recomea. Mas no  grave o bastante para ir ao mdico, s d um enjoo...
Mary Jane paralisou-se outra vez, baixou a mo de repente e a caneca de caf colidiu com a mesa.
	Shannon... ser que est grvida? Eu tive exatamente os mesmos sintomas quando comecei a esperar voc. Enjoo vespertino, em vez de matutino. Na verdade, ficava to enjoada que...  Conteve-se. Estava maluca? Revelar que sentia enjoo na escola e que levara duas semanas para criar coragem e pedir ao jrmo que a levasse a um mdico em Durango? Com certeza, no queria que Shannon soubesse de nada disso.
A filha a fitou consternada.
	No...  Meneou a cabea.  No estamos prontos para um beb ainda. Acabo de ser promovida, a casa no est acabada. Nem nos acostumamos  vida de casados ainda. Alm disso, usamos preservativos e...
	Que podem falhar  observou Mary Jane.  Acredite em mim, os bebs vm quando querem.
	Acho que sim  resignou-se Shannon, e fitou o vazio.  Afinal, eu vim bem rpido, s sete meses aps voc e papai terem se casado.  Sorriu.  Quem diria que meu pais conservadores andavam dando uns pulinhos antecipadamente?
Mary Jane disfarou.
	Oh, sabe como ... a gente se empolga.
Shannon riu descontrada.
	Acho que sim, mas, como a maioria das pessoas, no quero pensar nos meus pais fazendo algo to malicioso. Afinal, voc s tinha dezoito anos.
Desanimada, Mary Jane fitou a filha. Com certeza, no queria que Shannon pensasse mal dela, ou de Hal, mas, antes que pensasse numa rplica, Shannon apoiou o queixo na mo e fitou o infinito, sonhadora.
	Um beb  sussurrou ela.  Espere at eu contar a Luke. Ele vai ficar sem fala. Mas Luke  bom com bebs. Ele fez um curso-relmpago na primavera, quando a irm, Jeanette, deixou o beb com ele para ir ao Texas cuidar do marido Steve, que tinha se machucado num rodeio.
	Eu me lembro, querida.  Mary Jane sorriu com o encantamento no semblante da filha. Quem diria que sua filha, gnio em matemtica e cincias, ficaria to emocionada com a chegada de seu primeiro beb?
	Quando Luke comprou a Fazenda Crescent, havia um bero lindo num dos quartos. Agora que ele acabou a reforma no trreo, poder arrumar o cmodo e transform-lo em berrio.
Shannon sonhou mais um pouco acordada. Ento, levantou-se de repente, quase derrubando a caneca de caf.
	Tenho de ir para casa contar a Luke. At mais, me.
Da porta, Shannon voltou-se sorridente.
	Gostaria que papai estivesse aqui. Lembra-se de como ele ficou quando Jimmy nasceu?
	Sim.  Mary Jane sentiu um n na garganta.  Ele ficaria muito orgulhoso.  Ento, antes que recuperasse o flego, viu a filha partir.
Confusa, Mary Jane sentou-se e pensou em Shannon. Seria av. Novamente. Sempre considerara Jimmy e Chris-tina como seus netos, mas, desta vez, sua filha biolgica estava grvida. Era incrvel.
No apenas seu neto. E no de Hal, embora ele sempre pensasse em Shannon como sua filha. Sentiu a boca seca. Sentiu medo. Seria o neto de Garrett, tambm.
Mary Jane levantou-se e passou a andar em crculos, agitada. A vida toda, evitara pensar nesse acontecimento. No quisera considerar que estava privando Garrett de uma famlia.
Foi  janela e fitou o cu, cinzento com a aproximao de nuvens que trariam neve, j encobrindo totalmente o pico Randall. Lembrou-se de Hal, andando com Jimmy at o celeiro, conversando com a criana naquele seu jeito calmo, contando ao neto alguma informao importante que um fazendeiro devia saber. Jimmy, de olhos arregalados, ouvia como se entendesse tudo.
Podia quase ver Hal inclinado para ajustar-se  baixa estatura de Jimmy, a criana com a mo agarrada ao dedo de Hal, tentando manter o passo com suas perninhas gorduchas.
Cobriu os olhos para aplacar as lembranas e bloquear o sentimento de culpa. Mas elas continuavam fluindo.
Garrett s teria a mesma felicidade se ela levasse adiante o plano de lhe contar a verdade. Ele tinha o direito de saber, mas ela sentia a presso para esclarecer tudo empurrando-a pela correnteza de um rio turbulento.
	A me da anfitri tambm tem de ficar at o fim?  sussurrou Garrett no ouvido de Mary Jane.
Mary Jane sentiu um arrepio na espinha  voz dele to prxima, mais a carcia.do hlito. Garrett sempre lhe falava daquela forma. Ao irfclinar-se para ajud-la com o casaco, ou ao atrair sua ateno num restaurante ruidoso. Ele tivera de se aproximar e sussurrar porque a festa estava to animada que ela no o teria ouvido nem a quinze centmetros de distncia. Ele a enlaou pela cintura e puxou para um canto. Ela nunca deixava de se sentir quente e incomodada sob os sussurros e toques dele.
Mesmo aps duas semanas vendo-o quase todos os dias, no se acostumara  intimidade fsica. Como pudera esquecer o jeito dele de tocar e acariciar? Ele j se comportava assim quando namoraram, e no mudara. Devia ser uma reao dele  criao estril que ele recebera do pai, mas reconhecer isso no aplacava sua reao nervosa. Sempre respondia aos toques arrebatada por um desejo sensual.
	Mary Jane, voc tem de ficar?  insistiu Garrett.
	No. Becca e Brittnie disseram que iam ajudar Shannon a arrumar, j que cheguei cedo para os preparativos.
 Ela sorriu desolada.  Descobri que Shannon  uma verdadeira "sargenta" no que se refere a preparativos para uma festa. Ele riu.
	 difcil quando elas trocam de lugar com voc, hein?
	Ora, ela no herdou isso de mim  protestou Mary Jane.  Deve ser do... pai.  Repreendeu-se mentalmente ao perceber que quase dissera que Shannon herdara esse lado perfeccionista de Garrett. Desviou o olhar e prometeu a si mesma ser mais cuidadosa.
	Ento, posso roub-la a partir de agora?
Ela sentiu outra onda de arrepios na espinha.
	Sim... acho que sim.
	Ento, vamos.
Garrett foi buscar os casacos num dos quartos no andar de cima. Shannon o viu subindo e se aproximou da me na companhia do marido.
	J vo? Aposto que Garrett a quer s para si. Me,  to romntico... E voc est enrubescendo.
	No seja ridcula. Eu nunca enrubeso.  Mary Jane abanou-se de forma cmica, revelando que mentia.
Garrett voltou com os casacos e ajudou Mary Jane a vestir o dela. A caminho da porta, Luke atrasou-se para que Shannon ficasse entre o casal.
Shannon sorriu para Garrett.
	Tome cuidado com minha me.
Ele sorriu tambm.
	Sua me sabe se cuidar. Mas voc, tome cuidado com o neto dela.
	Oh, agora eu gostei... esta criana nada mais  que o neto de Mary Jane  divertiu-se Shannon.
Enquanto eles brincavam, Mary Jane olhou para o genro e sentiu um calafrio. Parecendo intrigado, ele analisou detidamente as feies de Garrett e Shannon e ento encarou a sogra. Apesar do choque, Mary Jane tentou manter uma expresso cordial. Luke adivinhara? Afinal, ele era quem mais convivia com Shannon agora. Teria notado a semelhana fsica e de temperamento entre ela e Garrett Blackhawk?
O momento to temido acontecia, e Mary Jane queria afast-lo, negar que estivesse acontecendo. Incapaz de encarar Luke, ocupou-se com os botes do casaco. Logo depois, Garrett lhe tomou o brao e passaram ao vestbulo.
O episdio todo durara poucos segundos, nem Garrett nem Shannon perceberam qualquer diferena, mas Luke continuava observando-os de cenho franzido, o brao prote-tor sobre os ombros da esposa. Sentindo a tenso, Shannon olhou para o marido, para a me e para Garrett. Fez uma pergunta, mas Ltke meneou a cabea, beijou-a na cabea e levou-a para junto de um grupo de convidados.
Mary Jane s pensava na expresso desconfiada do genro. Ele percebera? Mesmo que tivesse percebido, sabia que ele no diria nada a Shannon porque no queria mago-la. Disso tinha certeza.
Mary Jane sentia a corrente do rio caudaloso mais forte, impelindo-a a contar a verdade para todos os envolvidos.
Garrett no pareceu notar sua perturbao, e Mary Jane continuou com as despedidas enquanto rumavam  porta.
	Vamos assistir a algum show de fogos de artifcio?  indagou ela, sem flego. Aja normalmente. Converse. Responda. No fique histrica. Aps respirar fundo, Mary Jane sentiu-se melhor e concentrou-se no que Garrett dizia.
	Eu s no querfa que ficasse a noite inteira se despedindo  explicou ele, oferecendo-lhe o brao enquanto desciam os degraus da varanda.  Podamos ficar presos l para sempre.
	Oh, que resposta tipicamente masculina. Hal costumava dizer o mesmo.
	Bem, j pensou que ele podia ter razo?  Garrett instalou-a no carro e fechou a porta.  Voc conhecia pessoas em todos os lugares que frequentamos nas duas ltimas semanas, e falou com todas elas por um bom tempo.
	S estou sendo amigvel. E seja gentil comigo, ou o deixarei com minha bolsa enquanto vou ao toalete.
Garrett fingiu horror.
	No se atreveria!
Mary Jane riu.
	No me provoque.
	Bem, no me deixou alternativa. Terei de lev-la a um lugar onde no  conhecida.
	E onde seria?
	Em Albuquerque.
	Como?
Ele tomou a estrada na direo da casa dela.
	Em Albuquerque. Na minha casa.
J haviam circundado o pico Randall quando ela recuperou a voz.
	Para qu?
	Para relaxar  sugeriu ele.  Suas filhas me disseram que voc no tira frias h cinco anos. J est na hora.
	Oh, no sei, Garrett... Acho que no  uma boa ideia.
Garrett a ignorou.
	Fao uma festa de Natal para meus funcionrios todos os anos. Est marcada para a semana que vem. Eu gostaria que fosse e ficasse comigo l.
	Quer dizer... como um encontro?
	Encontro. Hspede. Voc escolhe. Mas v e fique l comigo. J conversei com Luke. Ele, o cunhado e seus dois sobrinhos disseram que podem cuidar da fazenda at voc voltar.
	Voc discutiu isso com Luke?  Mary Jane levou a mo  cabea. Sobre o que mais haviam conversado? Engoliu em seco, apavorada. No, no tinham conversado nada a respeito de Shannon. Luke s desconfiara de algo pouco antes ao se despedirem.  No devia ter feito isso.
	Decidi tomar logo as primeiras providncias. Se dei xasse por sua conta, acabaria no indo.
	Como sabe?
	Desde que voltei, voc se sente relutante, resistente e ridcula quanto a estar comigo, por isso tomei a iniciativa.
	Tomou mesmo  concordou ela, desanimada.
	Ento, j decidiu? Vai comigo a Albuquerque na semana que vem, para ser minha hspede?  Ele estacionou o carro diante da casa dela e voltou-se para fit-la.
Na penumbra, os ngulos do rosto dele se suavizavam. Garrett inclinou-se para a frente e tomou-lhe o queixo. Por algum motivo, quando ele se aproximava daquele jeito, Mary Jane se esquecia de tudo. O segredo que guardava, por maior que fosse, parecia encolher.
Venha comigo, Mary Jane. Deixe-me mostrar-lhe a minha casa, a minha empresa. Deixe-me mostr-la a meus funcionrios. Eles acham que no tenho ningum porque sou viciado em trabalho. Ajude-me a provar que esto errados.  Ele e beijou de leve.
Mary Jane entreabriu os lbios. Ele aproveitou e aprofundou o beijo, at deix-la sem flego. Ela deslizou as mos pela lapela, retribuindo cada investida. Naquele momento de ternura e descoberta, naquela ilha de paz, Mary Jane acreditou que tudo ficaria bem.
Melhor, tudo parecia razovel sob a ptica de Garrett. Ele precisava dela a seu lado. A ideia lhe parecia cada vez mais maravilhosa. Estariam longe de Tarrant. A corda bamba no oscilaria to forte. Sem dvida, era covardia, mas ansiava por ir com ele, por ter paz e segurana por algum tempo antes que a tempestade casse sobre sua cabea.
De repente, no desejava mais nada no mundo. Desvencilhou-se e sorriu.
	Est bem, Garrett. Irei com voc.
CAPITULO IX

Mary Jane imaginou se Gus Blackhawk chegara a conhecer a casa do filho. Se tivesse conhecido, no teria mais duvidado da capacidade de realizaes de Garrett. Aps conhecer o edifcio que sediava as vrias divises do Grupo Blackhawk, e agora a casa, Mary Jane deu-se conta de que Garrett poderia ter comprado e vendido os negcios do pai a qualquer hora.
A fazenda e as outras propriedades de Gus Blackhawk em Tarrant eram insignificantes comparadas aos empreendimentos de Garrett na regio de Albuquerque.
Na sexta-feira  tarde, Mary Jane completou uma semana de preocupao, desde a festa de Shannon e Luke. Vira-os duas vezes desde ento. A filha ainda estava atordoada com a notcia da gravidez, enquanto o marido parecia mais quieto e pensativo junto da sogra agora. O genro parecia avaliar Mary Jane com expresso meio decepcionada e confusa, como se esperasse que ela comentasse algo sobre as evidentes semelhanas entre Shannon e Garrett.
Mas Mary Jane no podia revelar o segredo a Shannon e Garrett ainda. Sentia que a verdade magoaria sua filha adorada, o genro querido e principalmente Garrett, que ganhava espao por si mesmo em sua vida e em seu corao. Esperava que uns poucos dias longe de casa a ajudassem a criar coragem. Pondo as preocupaes de lado, determinou-se a aproveitar aquele perodo com Garrett.
No carro, percorrendo a via pavimentada que levava  casa dele, uma verdadeira manso, Mary Jane apreciou os arredores de olhos arregalados. Cavalos pastavam em reas cercadas, animais de raa, com certeza. Celeiros e outros anexos bem conservados pareciam abrigar intensa movimentao.
Naquela Fazenda Blackhawk no havia desleixo, nada de mquinas velhas ou equipamentos em desuso nem construes abandonadas.
Aquela casa no devia ter cmodos cheios de coisas velhas a despachar, nenhuma prataria guardada ou nunca usada. No que Garrett no pudesse ter um quarto de despejos, se quisesse. A manso era imensa, no no estilo mediterrneo to popular na regio, mas uma variao do tema georgiano, com uma ampla varanda que circundava todo o andar trreo. Os cmodos do andar superior davam num terrao sobre a varanda.
	Garrett, sua casa  linda!  exclamou Mary Jane, antes mesmo de saltarem do automvel.  Simplesmente maravilhosa.  Tomou flego e o fitou.  A campainha toca o tema de "E o vento levou..."?
Garrett riu.
	Meio pretensioso, no? Comprei esta propriedade de um camarada da Gergia que queria ser fazendeiro. S que ele perdeu dinheiro 'nesse negcio e decidiu criar cavalos de corrida. Quase perdeu a camisa com este e outros maus investimentos. No fim, teve de vender isto aqui. Eu estava no lugar certo na hora certa.
	Acho que  mais que isso  opinou Mary Jane. Sem dvida, Garrett procurara e encontrara aquela boa oportunidade. Ningum alcanava tamanho sucesso por acaso.
	Talvez.  Ele estacionou diante da manso, tirou a bagagem do porta-malas e subiu os degraus da varanda. A porta dupla impressionante estava decorada com enormes guirlandas de Natal.
	Desculpe-me por no ter lhe enviado uma guirlanda to grande quanto estas  comentou Garrett.  Aquela era a maior que havia em Tarrant.
	Ainda bem  retrucou Mary Jane.  No caberia na minha porta!
Risonho, ele a convidou a entrar no vestbulo, to amplo quanto uma sala. Mary Jane arregalou os olhos diante da escada curva que levava ao andar superior e das portas que se abriam para salas ricamente decoradas.
	Garrett... estou atnita. No imaginava que sua casa fosse to bonita.
Ele ergueu o sobrolho.
	Imaginava um solteiro morando num quarto cheio de livros sobre gerenciamento de fazendas, no ? De cigarro pendurado na boca e se deitando com as botas sujas?
	No precisa exagerar  assegurou Mary Jane, divertida.  Sei que voc no fuma.
Uma mulher alta e magra aproximou-se. Ostentava uma mecha branca nos cabelos e tinha os olhos verdes.
	Ah, Lena, a est voc  saudou Garrett. Tomou o brao de Mary Jane e apresentou-a.  Mary Jane Kelleher, esta  a gerente da casa, Lena Olveras.
Lena estendeu a mo.
	 uma palavra pomposa para governanta  comentou ela, e sorriu enquanto apertava com firmeza a mo de Mary Jane.  O seu quarto est pronto. Por favor, avise se precisar de qualquer coisa. Se desejar, poderei desfazer a sua bagagem.  Voltou a seus afazeres, e Mary Jane surpreendeu-se com a semelhana entre ela e Ruth Chandliss.
Garret pareceu adivinhar seu pensamento.
	Como no podia contratar Ruth, consegui a segunda melhor profissional do pas.
Mary Jane assentiu e, ento, analisou a casa com outros olhos. Percebia-se que a manso grandiosa fora decorada de modo a contrastar com a riqueza e a influncia de Gus. No que fosse repreender Garrett. Afinal, ele conquistara o sucesso com esforo prprio, e era isso que importava.
Garrett indicou-lhe a escada, levando sua bagagem, um conjunto de malas que Brittnie lhe emprestara, presente de casamento do av de Jared. A velha mochila que usava nas viagens para compra e venda de gado teria combinado mais com o celeiro de Garrett.
No corredor do andar superior, ele abriu uma porta.
	Este  o seu quarto, mas, se no gostar, pode escolher entre outros quatro.  Ergueu o sobrolho sugestivamente.  Ou partilhar o meu, logo ali.
Mary Jane torceu o nariz, divertida, embora achasse o convite tentador.
	No, este aqui est timo  afirmou, apreciando a decorao suntuosa do aposento.  Mais que timo. Na verdade,  maravilhoso.
O quarto parecia um mostrurio de decorador, em tons de pssego, verde-gua e amarelo-claro. A cama de casal, alta e antiga, tinha cabeceira acolchoada em pssego e se cobria de almofadas. A televiso e o aparelho de som sofisticados ficavam escondidos num armrio, e portas em arco davam para o terrao de forma a se tirar o mximo de proveito da luz. Era um ambiente para sonhar, relaxar. De algum modo, os tecidos caros e luxuosos convidavam a outras formas de sonho... Percebeu que Garrett acompanhava sua reao. Se ela se permitisse, poderia extravasar suas fantasias erticas ali.
	E perfeito!  finalizou, sorridente.
	O banheiro fica ali, e no vamos partilh-lo, caso esteja planejando entrar para dar uma olhada nas minhas ndegas enquanto tomo banho.
	Espere sentado!  desdenhou Mary Jane.
	S estou dizendo que notei como me olha e sei que est morrendo de vontade de me ter, mas um homem tem de proteger a reputao, por isso, ficaremos em quartos separados.  Garrett foi at a porta e se voltou.  Gostaria de uma volta pela fazenda? Bem rpido? J vai escurecer.
	Eu adoraria, mas tenho de trocar de roupa.
	Venho cham-la em quinze minutos  avisou ele, e saiu fechando a porta.
Mary Jane despiu a cala e o suter com que viajara at Albuquerque e vestiu cala jeans e botas. Poderia se acostumar com aquela casa maravilhosa sem esforo.
Em exatos quinze minutos, Garrett bateu na porta. Ofegante com a correria, Mary Jane atendeu quando ainda enfiava a blusa na cala.
	Sabe, no faria mal se se atrasasse de vez em quando  ralhou, brincando.
	Ora, esta  minha casa. Eu fao as regras.  Ele avaliou seus trajes e ficou satisfeito.
	O rei do castelo?  provocou Mary Jane, e pegou uma parca.
Ele a ajudou com o agasalho.
	Voc no faz as regras na sua casa?
	Sim, e as obedeo tambm, j que moro sozinha.
Aos poucos, com as brincadeiras, livravam-se do constrangimento. Garrett levou-a at a cozinha, onde Lena preparava o jantar, e depois ao estbulo, onde dois cavalos os aguardavam,
Cavalgaram por algum tempo, com Garrett mostrando a propriedade. Mary Jane espantou-se com as dimenses da fazenda, em comparao  dela.
De volta  manso, Mary Jane sentiu-se sonolenta de cansao, embora no tivesse feito nenhum trabalho de fato. Certamente, estava ansiosa e apreensiva com a chegada da noite. Pelo que sabia, ficariam sozinhos naquela casa enorme.
	Tenho de tratar de alguns assuntos e dar alguns telefonemas  informou Garrett, indicando a porta do escritrio.  Sinta-se em casa. Pegue o interfone e chame Lena se precisar de algo. O ramal dela est escrito no aparelho.
	Acho que no precisarei de nada  retrucou Mary Jane, e abafou um bocejo.  Esse negcio de tirar frias  exaustivo...
	Mas so s trs dias  protestou Garrett, afastando uma mecha de cabelos rebelde de sua testa
Ela sentiu o calor da mo dele espalhar-se por sua pele.
	Eu sei. Por isso, nunca tiro frias. Uma semana inteira acabaria comigo.
Ele ergueu o sobrolho.
	No acho que esse seja o motivo. Voc trabalha demais  censurou.
	 o que minha famlia me diz, ento, no comece voc tambm com a mesma ladainha.
	J pensou que as pessoas podem estar preocupadas com seu bem-estar?
	J, e fico contente, mas no  necessrio. Estou sozinha h algum tempo e tenho me sado bem.
	Est? No h algum aspecto de que no goste no fato de estar sozinha?
	Por exemplo?
Ele a segurou pelos ombros.
	Fazer as refeies sozinha, no ter com quem conversar.
	Na verdade, no. Se me sentir sozinha, sempre posso levar meu prato para o pasto e conversar com as vacas.  O peso das mos dele era agradvel, reconfortante.
Garrett ignorou o comentrio e a massageou de leve.
	Na verdade, h algumas coisas que no podemos fazer sozinhos.
Mary Jane bateu os clios, coquete.
	Por exemplo?
	Beijar.  Ele se aproximou.  Pense nisso, uma pessoa sozinha beijando o ar. Parece esquisito.
	Tambm acho estranho  concordou ela, ofegante.  Nunca vi algo assim. Voc j viu?
	No  admitiu ele.  S estou especulando. J duas pessoas podem se beijar do jeito certo.
Ela se aninhou junto dele, enlaando-o pela cintura.
	 mesmo?
	. Tenho certeza.
Mary Jane franziufo cenho, fingindo confuso.
	No sei se entendi bem, Garrett. Talvez voc possa me mostrar...
	Por que no?  Garrett abraou-a com fora, at seus corpos ficarem bem colados, inclinou a cabea e beijou-a. Comeou suave, mas logo aprofundou o beijo, e Mary Jane correspondeu.
Garrett encerrou o momento e beijou-a no rosto, carinhoso.
	Entende o que eu digo?
Mary Jane sentia falta de ar.
	Eu... no tenho tanta certeza. Talvez deva me mostrar novamente, para... para eu ver se entendi mesmo.
Garrett riu, beijou-a no pescoo e sentiu sua pulsao acelerada.
	Acho que entendeu muito bem e, se no pararmos com isso, todo mundo vai entender muitas coisas.
	Oh.  Ela afastou-se abruptamente e enrubesceu enquanto olhava ao redor.  Esqueci que estvamos no corredor. Qualquer um podia ter aparecido.
Ele riu e a tocou no queixo.
 Mas ningum apareceu, portanto, pare de se preocupar.  Encaminhou-se ao escritrio.  Tenho um trabalho a fazer. Venho cham-la em algumas horas. Aproveite e descanse um pouco.
Como se ela pudesse... Mary Jane sorriu e apressou-se pelo corredor. Garrett entrou no escritrio. Ela pretendia tomar a escada, mas deteve-se para apreciar a decorao de Natal na sala.
O ambiente imponente era dominado pela rvore branca de trs metros e meio diante da janela ampla que ocupava a parede toda. Adoraria ver o efeito de fora,  noite. Entre as lampadinhas brancas, os enfeites tambm eram quase todos alvos, com um ou outro detalhe em vermelho ou dourado.
Era lindo, porm, como o prprio Garrett definira, sem alma. No havia ornamentos feitos por crianas, como em sua casa. Tentou se convencer de que, se considerasse uma famlia importante, ele teria se casado, mas no conseguiu. Bastava ver a empresa e a fazenda e entender que Garrett s aceitava o melhor. Seria possvel que no tivesse se casado porque no encontrara o relacionamento que considerava ideal? Ou ainda se sentia trado por ela e era incapaz de se arriscar amando outra pessoa? Era difcil acreditar nessa hiptese, pois ele nunca demonstrara am-la tanto quanto ela o amava. O desprezo ficara claro quando ele a abandonara. Cada vez mais, porm, percebia que a atitude do passado no combinava com o Garrett que reencontrara.
Suspirou frustrada e tomou a escadaria. As decises que tomasse afetariam Shannon e o beb que ela esperava. Sempre quisera apenas proteg-l, mas agora, vendo a casa e os negcios de Garrett, temia estar privando a filha de sua herana, de conhecer o homem que era seu pai biolgico. Shannon obviamente tinha a determinao e a ambio de Garrett, bem como a habilidade matemtica e cientfica.
Anos antes, Shannon indagara sobre sua aparncia, diferente da de suas irms, e Hal inventara uma bisav francesa. Se Mary Jane contasse a verdade agora, Shannon se ressentiria do homem que a criara e que no era seu pai, talvez o acusasse de participar ativamente da farsa.
Oh, tinha de parar com aquilo. Esperara que seu subconsciente arranjasse uma soluo para o problema, mas isso no acontecera nem aconteceria. Teria de contar a verdade. E logo.
No quarto, despiu-se, vestiu um robe e deitou-se sobre a macia colcha cor de pssego matelassada. Em segundos, adormeceu.
Ela estava ali. Enquanto vestia o suter e alisava os cabelos midos, Garrett mal disfarava a euforia por ter finalmente levado Mary Jane para sua casa. Planejava faz-lo desde que a reencontrara, em setembro. Ou melhor, planejava isso desde que soubera do falecimento de Hal Kel-leher, quatro anos antes. Comeava a achar que o passado no importava tanto, afinal. Mary Jane no queria conversar a respeito, e era aceitvel. Que deixassem para trs as perguntas no respondidas, pois a vida era curta demais. Queria recomear daquele ponto. Queria Mary Jane em todos os dias de sua vi^a.
Ele bateu na porta do quarto dela e aguardou, impaciente. Agora que tomara a deciso, queria saber como ela reagiria... como se no fosse tentar convenc-la, caso fosse contrria...
No houve resposta. Garrett bateu novamente e apurou o ouvido. Preocupado, abriu a porta e deu uma olhada. Ergueu o sobrolho, surpreso, ao v-la dormindo, com o acolchoado at o queixo.
	Mary Jane?
Ela no se mexeu.
Garrett entrou no quarto e aproximou-se. Esquea o jantar, concluiu. Mary Jane precisava dormir. Ajeitou melhor o acolchoado e avaliou suas mos. Fortes, competentes. Pela primeira vez, imaginou como teria sido para ela casar-se aos dezoito anos com um homem bem mais velho que j tinha uma filha de seis anos e uma fazenda onde s havia trabalho.
	No ter de fazer mais isso, MarJay  sussurrou.  No importa o que seja preciso, vou me casar com voc. Merece um descanso e vou lhe dar isso.
Inclinou-se, beijou-a de leve e deixou o quarto.
Mary Jane acordou sobressaltada, recordando instantaneamente onde estava e de se deitara para descansar antes do jantar. Rolou na cama e gemeu ao ver que eram sete horas. Afastou o acolchoado, andou um pouco pelo quarto e percebeu que a luz varando as cortinas era natural. Sol. Olhou novamente para o relgio e entendeu.
Dormira por catorze horas seguidas.
Impossvel. Ajeitou os cabelos desgrenhados. Por que Garrett permitira que dormisse tanto? Onde ele estava, alis? Meneou a cabea. Manh de sbado, onde mais ele estaria seno na cama dormindo?
	Convide Mary Jane Kelleher a se hospedar em sua casa e veja como ela dorme o fim de semana inteiro  resmungou, apressando-se ao banheiro.
Lembrava-se vagamente de Garrett entrar no quarto e lhe sussurrar qualquer coisa. Podia ter sido sonho. Claro, bastava perguntar a. ele, mas assim teria de lidar com uma situao para a qual no estava pronta.
Meia hora depois, desceu em busca de caf. Sentindo seu aroma inconfundvel, seguiu-o at a cozinha. Garrett estava  mesa, lendo jornal e tomando o desjejum. Ele no ergueu o olhar quando ela abriu a porta, e ela aproveitou para observ-lo um pouco.
Uma cena domstica. Mary Jane percebeu que estava apaixonada por Garrett. No era o sentimento movido a hormnios da juventude, mas algo que Hal semeara em seu esprito. Tratava-se de companheirismo, compreenso, famlia, trabalho e opinies.
Ao impacto daquela percepo, sentiu os joelhos fracos.
	Ol, bela adormecida  saudou Garrett, ao perceber sua presena. Levantou-se.  Voc est bem?
Por instinto, ela esboou um sorriso para mant-lo afastado at que recuperasse o equilbrio.
	Estou bem  afirmou, descontrada.  Fiquei... espantada por v-lo de p to cedo. Pensei que voc fosse do tipo que dormia at mais tarde aos sbados. Ele sorriu.
	S se tiver um bom motivo para isso.
Mary Jane lanou-lhe um olhar severo, e ele riu. Garrett foi ao armrio e pegou uma caneca para ela.
	Deve estar faminta. No come nada desde o almoo de ontem.
	No devia ter me deixado dormir tanto  protestou.
Aceitou a caneca com caf e acrescentou creme.
	Bem, achei que tinha se cansado demais aps a visita  fazenda e achei melhor deix-la dormir.
Mary Jane sorriu, e em poucos minutos atingiram o nvel de descontrao do dia anterior. Saber que o amava s acrescentava outra pea  linha de domin. Se uma pea casse, todas se seguiriam e arrasariam suas boas intenes. Tinha de contar tudo a ele, e logo, mas no podia ser naquele dia. Era importante contar primeiro a Shannon.
Lena entrou apressada e atarefada com as providncias para a festa de Natal.
Naquela noite, Garrett recebeu os funcionrios em casa. Eles saudaram Mary'Jane com interesse, principalmente Jill, que ela j conhecera no dia anterior, no escritrio, e que parecia aprovar a namorada do patro.
A festa foi alegre. Houve dana, cantoria e troca de presentes. Mary Jane levara uma raridade para dar a Garrett, uma foto em preto-e-branco da Fazenda Blackhawk tirada na dcada de 1940. Mandara recuperar o instantneo original que Brittnie encontrara entre outros documentos.
Passava da meia-noite quando o ltimo convidado foi embora. Cansada e sonolenta, Lena olhou desanimada para a sala em desordem antes de se encaminhar a seu apartamento, na edcula.
	Vou organizar o batalho de limpeza amanh  declarou, exausta.  Mas que ningum me acorde antes do meio-dia!	
	Sim, senhora  declarou Garrett. Assim que a governanta se foi, voltou-se para Mary Jane.  Finalmente, ss  entoou, os olhos brilhando.  Venha ao escritrio comigo. Tenho algo para voc.  Tomou-lhe a mo e conduziu-a pelo corredor.
Mary Jane notou que o local no fora aberto aos convidados e percebeu por qu. Aquele era o santurio particular de Garrett. Livros favoritos nas estantes, fotos e colees em vitrines. Diante da lareira acesa, havia uma garrafa de champanhe num balde com gelo e duas taas numa bandeja.
Garrett encheu as taas com a bebida cara e estendeu-lhe uma.
	Venha c, MarJay...
O apelido nunca falhava, e ela atendeu.
	Vamos comemorar com champanhe.
	O que estamos comemorando?  indagou ela, sorvendo um gole. Como no provara as delcias da festa, tinha o estmago vazio e o lcool logo lhe subiu  cabea.
	J vou lhe mostrar.  Ele foi  mesa e tirou uma pequena caixa da gaveta. Era um anel de safira, a pedra azul rodeada de diamantes.
Estaria tendo uma alucinao devido ao champanhe?
	Garrett, o que...
	Case-se comigo, MarJay. So vinte e oito anos de atraso, mas case-se comigo.
	Garrett, eu...  Ela ficou trmula e chegou a derrubar um pouco do champanhe. Garrett retirou-lhe a taa.  Eu... no sei que dizer.
Ele estreitou o olhar.
	"Sim" seria um bom comeo. E no diga que  repentino. O que achava que eu estava planejando?
	Eu... no imaginei...
	Pois comece a imaginar.  Garrett fechou a caixinha com a jia, obviamente desapontado com a reao.  E Hal? Ainda ama tanto seu finado marido que no pode se casar comigo?
	Sempre amarei Hal, mas no me enterrei com ele.
	Ento, o que ?
	Preciso de tempo  pediu Mary Jane, angustiada.  Preciso resolver uns assuntos...
Garrett avaliou-a demoradamente e ento suavizou a expresso.
Ento, resolva-os. Mas resolva logo. Esperei vinte e oito anos e estou cansado.  Abraou-a e beijou-a.  Tenha d, Mary Jane. J no sofri bastante?
Mary Jane alojou a cabea dele sob o queixo, desejando nunca ter de deixar a segurana daquele abrao.
	Est bem, Garrett, resolverei tudo bem rpido  prometeu.
Mas, depois que ela resolvesse tudo, le ainda a amaria?

CAPITULO X

	Tanto planejamento  resmungou Garrett, enquanto se afastava da casa de Mary Jane, onde a deixara aps a viagem em silncio. Depois de persegui-la por Tarrant provocando encontros, mandar-lhe flores e guirlandas de Natal, dar-lhe de presente o vestido de que ela gostara, lev-la para jantar todas as noites por duas semanas e convenc-la a se hospedar na fazenda dele, tinha certeza de que ela j sabia o que ele planejava.
Acelerando o automvel, tomou a via que levava a sua fazenda. Amava Mary Jane, raios. Amava-a desde os de-zessete anos. Ainda tinha dificuldade em aceitar o fato de ela ter-se envolvido com ele e Hal ao mesmo tempo, mas isso era passado. Hal se fora e ele estava ali, pronto para despos-la.
O que a impedia? A fazenda? Isso seria fcil resolver. Contrataria o melhor capataz para administrar a propriedade para ela. Mas no era esse o problema, havia algo mais. Bem, ela prometera resolver tudo rpido.
Concentrado em Mary Jane, no percebeu que j havia um carro estacionado diante de casa. Sorriu ao ver que era Brittnie Cruz. Ela devia estar l, trabalhando nos itens que ete pretendia doar  sociedade histrica. Pegou a bagagem e apressou-se para entrar.
Na sala de jantar, Brittnie trabalhava em seu microcom-putador porttil, organizando o inventrio.
 At que enfim, o homem que sumiu com minha me durante o final de semana. O que tem a dizer em sua defesa?
Garrett riu e tocou-lhe o queixo. Gostava dela, gostava de toda a famlia de Mary Jane, principalmente de Shannon, com quem parecia ter uma ligao especial de compreenso mtua. Mal podia esperar para adotar as trs irms.
	Eu diria que nos divertimos, sua me teve um descanso merecido e todo o resto ficar sem resposta... pelo menos, da minha parte.
Brittnie riu e comeou a lhe contar sobre suas descobertas. Garrett nunca conhecera algum que se animasse tanto diante de livros e papis antigos.
	Encontrei algo no fundo de uma caixa, que acho que voc devia abrir sozinho.  Brittnie pegou uma caixa de metal verde com a inscrio: "Pessoal e Confidencial".
Garrett franziu o cenho. A letra era de Gus, mas ele nunca vira aquilo. Havia uma fechadura, mas teria de arromb-la, pois a chave se perdera.
	Obrigado, Brittnie. Aviso se for algo importante para a coleo que est organizando.
Os olhos cinza dela brilharam.
	Talvez sejam as cartas de amor de seus pais, Garrett. Vai querer guard-las Levantou-se e pegou o casaco.  Estou encerrando por hoje. Ruth j foi, mas deixou uma caarola com seu jantar.
Curioso a respeito da caixa, Garrett apenas assentiu, enquanto Brittnie apressava-se  porta. Foi  cozinha e procurou uma chave de fenda na gaveta de ferramentas de Ruth. Colocou a caixa sobre a mesa e forou a fechadura.
A caixa se abriu. Havia uma carta endereada a ele, com data de vinte e oito anos antes. Devagar, ergueu-a e ento olhou o resto do contedo.
Eram cartas, sim, mas no cartas de amor de seus pais.
Mary Jane acabara de desfazer as malas e estava na cozinha, abrindo a correspondncia de dois dias, quando ouviu a porta de um carro se fechando. Abriu a porta dos fundos e encontrou Garrett j na varanda. Enrubescido, exibia um olhar de quem planejava cometer um assassinato.
	Garrett, o que foi?
	Isto.  Ele ergueu a mo, e Mary Jane viu um calhamao de papis.
Entraram na cozinha.
	0 que  isso?
	Qualquer idiota pode ver que so cartas. Aquelas que voc me escreveu.  Ele as entregou.
	E da?  Olhando as cartas, Mary Jane no entendia a irritao de Garrett.
	E da?  repetiu ele, incrdulo.
Ela ergueu o olhar, confusa.
	Garrett, at parece que voc s tomou conhecimento delas agora...
	So auto-explicativas  interrompeu ele.  Lendo nas entrelinhas, entendi algo que devia ter adivinhado h muito. Pela idade de Shannon, para comear. Ela  minha filha, no ? E voc no me disse nada durante todos esse anos. Permitiu que ela crescesse achando que outro homem era seu pai!
	Espere a! Agora essas cartas lhe fazem sentido? Quando as leu pela primeira vez, no captou nas entrelinhas?
 Mary Jane agitou o calhamao diante do nariz dele.  Eu disse que precisava desesperadamente conversar com voc, implorei que me telefonasse, que me escrevesse, que viesse me ver, qualquer coisa, porque eu tinha algo importante para lhe contar.
	Do que est falando? Eu nunca vi essas cartas antes. 
	No minta para mim, Garrett.  Ela bateu as cartas na mo.  Escrevi estas cartas e a nica resposta que obtive foi uma mensagem seca dizendo que estava tudo acabado entre ns, que voc percebeu que era jovem demais para se envolver com algum... algum... algum como eu!
	Eu nunca escrevi nada disso! E nunca vi essas cartas antes. Estavam trancadas numa caixa na casa de meu pai.
Estavam frente a frente, gritando um com o outro, quando a verdade revelou-se.
	Meu pai  murmurou Garrett, a voz trmula. Mary Jane estava igualmente horrorizada.  No pensei... fiquei to furioso com voc quando as vi. Estavam naquela caixa porque Gus as roubou.  Olhou para os envelopes.  Mas foram seladas...
	Meu pai  deduziu Mary Jane.  Ele as roubou. Meu pai trabalhou no correio por algum tempo, logo aps voc se alistar. Disse que um amigo lhe arranjara o emprego, talvez... talvez tivesse sido seu pai, mas... mas logo pediu a conta e deixou a cidade, disse que no precisava mais do emprego. Agora imagino se seu pai lhe deu uma boa soma para... - Meneou a cabea, incapaz de aceitar a evidncia.
	Ele no podia t-las roubado. Violar correspondncia  crime federal.
Garrett riu spero.
	Isso no teria impedido nenhum deles. Meu pai deve ter pago ao seu para roubar as suas cartas, para nos manter afastados.  Fitou Mary Jane no rosto transtornado.  Disse que recebeu uma carta minha. Que carta?
	Aps despachar estas cartas, recebi uma resposta sua. Era uma mensagem datilografada na qual voc dizia no ter nada em comum comigo. Que percebera que no me amava. Que eu no era para voc. Dizia que tinha coisas a fazer que no me incluam. Estava assinada com as suas iniciais, GB, em maisculas, como sempre. Na carta, voc me tratava de MarJay. Joguei fora, de to furiosa. Achei que voc tinha me usado.  Ergueu as mos desamparada.
	A filha do bbado da cidade.
Garrett meneou a cabea devagar, ainda tentando entender.
	Ele deve ter procurado em meus pertences e encontrado um bilhete ou algo assim.  Passou a mo no rosto. Meu pai no queria que namorssemos, mas nunca imaginei que fosse capaz disso. Nunca considerei...  Fitou-a com expresso desolada.  Nunca me envergonhei de voc por causa de sua famlia. Mas, mesmo que tenha pensado isso, por que no insistiu?
	Garrett, eu tinha dezoito anos. Estava assustada, sem dinheiro, sem emprego, sem apoio da minha famlia, exceto por meu irmo, que tinha um emprego de salrio-mnimo. Ento, recebo uma carta sua dizendo que no queria mais nada comigo. Por que continuaria insistindo?
	Ento, casou-se com Hal.
		Ele era o melhor amigo de meu irmo David. Sempre gostou de mim, sempre foi gentil comigo. Hal fora feliz no primeiro casamento e queria se casar novamente, precisava de uma me para Becca. Eu no sabia o que fazer. No tinha dinheiro, no tinha profisso, e l estava ele, se oferecendo para cuidar de mim. Foi um bom marido. Cheguei a am-lo. E ele... ele sempre considerou Shannon como sua filha.
 Mas no era.  Garrett adotou de novo o tom frio. 	Shannon  minha filha, e vai me dar um neto.
	Voc no vai contar a ela  advertiu Mary Jane.  No se atreva a contar que  o pai dela.
	Voc vai contar?
	No devido tempo...
	Agora!  gritou Garrett, furioso.  Ou eu mesmo contarei. No tenho outros filhos, quero saber se Shannon...
	Garrett, no ter filhos foi escolha sua, podia ter se casado...
	Eu era apaixonado por voc. Desde os dezessete anos, nunca deixei de am-la. Podia ter me casado com outra, mas como saber se essa outra no me trairia, como voc?
	Eu no tra voc!
	Mas eu no sabia.  Ele adotou uma atitude pragmtica.  Ou voc conta a verdade a Shannon, ou eu conto. 
	Retirou-se pelos fundos batendo a porta.
Mary Jane foi atrs dele.
	Garrett, no! No pode fazer isso. No...  Mas ele j partia com o carro.
Mary Jane no conseguia raciocinar. S sabia que tinha de chegar a Shannon antes dele. Atordoada, pegou a caminhonete e tomou o rumo da Fazenda Crescent.
A prpria Shannon abriu a porta.
	Oi, me. Como foi em Albuquerque? Eu...  Reparou no rosto transtornado da me e se assustou.  Me, o que foi?
	Querida... eu... eu preciso conversar com voc  declarou Mary Jane, trmula.  Luke est? Acho que ele devia ouvir.
	Est. Venha se sentar.  Shannon amparou a me at uma poltrona junto  lareira.  Vou cham-lo.
	No... No pode ser verdade.  Shannon olhou para Mary Jane, para Luke e ento de volta  me.  Garrett Blackhawk? Meu pai? No.
Mary Jane segurou a mo da filha com carinho. Acabara de contar toda a histria.
	Eu lamento tanto, querida...  Sabia que precisava reafirmar o amor que ela e o marido haviam lhe dedicado.
 Hal e eu nunca quisemos que soubesse. Para mim, e para o resto do mundo tambm, ele era o seu pai. Tive de lhe contar a verdade agora porque Garrett descobriu e ameaou revelar tudo se eu no o fizesse.
Shannon afastou-se de Mary Jane e de Luke.
	Eu... estou com enjoo.  Deteve-se ao p da escada.
O marido foi ampar-la, murmurando palavras de conforto enquanto subiam.
Mary Jane ficou sozinha, desejando que aquela calamidade estivesse acontecendo com outra pessoa. Logo, Becca e Brittnie saberiam e, em seguida, todos em Tarrant. O pesadelo continuaria, a histria se modificando a cada verso. Ergueu o olhar e viu o genro voltando.
	Ela vai descansar  avisou Luke.
Mary Jane levantou-se.
	Vou ver se...
	No, voc j fez muito  declarou ele.  Ela vai comear a se ajustar  ideia agora.
	Eu a magoei.  Mary Jane meneou a cabea, amargurada.
	Mas no foi intencional. No fundo, Shannon sabe que o que voc e Hal fizeram foi para o bem dela. Mary Jane, voc -a criou para ser forte e agora tem de dar tempo para ela se lembrar disso.
Ela encarou o genro.
	Voc adivinhou, no ?
Ele meneou a cabea.
	Comecei a desconfiar na festa de Natal que demos aqui. Ela e Garrett realmente se parecem.
	Eu sei, mas no acredito que algum mais tenha percebido. Por que no contou a ela?
Luke sorriu triste.
	No era meu segredo para contar, Mary Jane, mas, para ser franco, achei que voc teria de revelar logo.  Apertou-lhe o ombro.  Vai ficar tudo bem. Pode levar algum tempo, mas vai ficar tudo bem.  difcil agora, por causa do beb.
	Ela no devia ter esse tipo de preocupao  lamentou Mary Jane.
	O que est feito est feito  resumiu o genro.
Mary Jane o abraou e olhou ao redor, perdida.
	 melhor eu voltar para casa. Cuide dela. E me avise se precisar de algo.
	Eu aviso  prometeu ele.
Mary Jane saiu e sentiu o ar frio da noite. Percebeu que sara sem casaco. Tremendo, entrou na caminhonete e voltou para casa. Shannon superaria aquele choque, tinha certeza. Mas e Garrett? Amava-o e queria se casar com ele. S no sabia se ele conseguiria perdo-la por no o ter procurado antes.
Dois dias se passaram sem notcias. Mary Jane pensou em telefonar para Shannon e para Garrett, mas no o fez. Ambos precisavam de tempo para se acostumar com a ideia.
No terceiro dia, preparava o caf da manh quando ouviu um automvel parar diante da casa. Alegrou-se ao reconhecer o carro de Shannon. Estreitou o olhar e viu que a filha estava acompanhada. Seria Luke? No, era Garrett.
Saiu  varanda frontal de braos cruzados para se proteger do frio.
	Shannon, Garrett  saudou, os olhos brilhando com
as lgrimas.
A filha subiu os degraus da varanda. Estava plida e abatida, mas parecia em paz.
	Me  murmurou, e correu a abra-la.
Mary Jane abraou e beijou a filha, levando-a para dentro. A porta ficou aberta para Garrett.
	Voc est bem, querida?  indagou Mary Jane, passando as mos trmulas no rosto da filha.  Eu estava to preocupada, mas sabia que precisava lhe dar tempo...
	Estou bem, me  assegurou Shannon.  Telefonei para Garrett ontem  noite. Ele foi l em casa, conversamos e combinamos vir aqui juntos hoje.
Mary Jane olhou para Shannon e para Garrett.
	Est... tudo bem?
	Sim  reafirmou a filha.  Vou levar algum tempo para me acostumar, mas ficarei bem.  Deu de ombros.
 Isso muda a forma como sempre pensei em mim mesma, mas Hal Klleher era meu pai, e sei que as decises que vocs tomaram foram para o meu bem.
Mary Jane apreciou o rosto bonito da filha mais uma vez.
	Hal ficaria orgulhoso se a ouvisse agora. Ns no que ramos que se magoasse.
Assentindo, Shannon beijou a me novamente e avisou:
	Vou trabalhar, mas nos vemos mais tarde, est bem?
Mary Jane abraou-a novamente e a soltou.
Quando Shannon se foi, Mary Jane fechou a porta e voltou-se para Garrett no meio da sala, ainda de casaco e com o chapu na mo.     
Ele tinha os olhos avermelhados, denunciando cansao e noites mal dormidas.
	E voc, Garrett? Est bem?
Ele esboou um sorriso, atirou o chapu no sof e despiu o casaco.
	Depende... de voc me perdoar por ser um cafajeste. Eu disse coisas...
	Voc estava chocado.  compreensvel.
	Agi como Gus, fazendo exigncias, estabelecendo as regras.  Garrett soltou os braos ao longo do corpo, a expresso puro tormento.  Gus devia saber.
 Sobre Shannon?
	Sim. Ele era esperto, deve ter lido nas entrelinhas e deduzido o motivo de voc querer tanto falar comigo. Depois, viu Shannon por a, com seus cabelos negros e olhos azuis...
claro que adivinhou.
	Sempre achei que ele sabia  admitiu Mary Jane.  Era um dos motivos por ele nos odiar tanto. Tentou comprar a fazenda para se livrar de todos ns, mas Hal no vendeu. Gus era um homem amargo por ter perdido voc, por ter afastado o prprio filho, e com isso perdeu a chance de ser av tambm.
	Isso o consumiu  afirmou Garrett.  Suas ltimas palavras foram sobre ter o direito de colocar voc para correr, que voc no era boa o bastante para mim... parece a carta que ele lhe escreveu em meu nome, no? At o fim, ele tentou justificar seus atos.
	Sinto pena dele. Na verdade, sempre senti.  Mary Jane fez pausa e endireitou os ombros.  Voc tinha razo. Se insistisse, eu acabaria conseguindo falar com voc. Mas aceitei aquela carta sem questionar, era jovem demais, e tola demais, para perceber que voc realmente me amava e no me abandonaria daquele jeito, mas...
	Como?  Garrett aproximou-se.
	Como eu disse, convenci-me de que voc se envergonhava de mim por ser filha de Bryce Sills, o bbado da cidade. Ns nunca amos aonde os outros casais de namorados iam. Esperei que me levasse ao baile de formatura, mas voc no me levou.
	Nunca me envergonhei de voc. Tem de acreditar nisso. Sempre a amei, mas sabia que, se a levasse a lugares pblicos, meu pai ficaria sabendo e tomaria alguma atitude para nos separar. Fiz o que ele queria, alistei-me, lutei no Vietn, para ele ficar orgulhoso e me deixar em paz. Na volta, eu poderia me casar com voc e moraramos na Fazenda Crescent, criando filhos e gado.
	Oh, Garrett, voc nunca me disse nada disso...
	Temia que no desse certo.  Garrett deu de ombros.
 Como no deu. Gus pareceu no se importar por eu estar com voc, mas estava fingindo. Tenho certeza de que queria escolher uma mulher para mim. Ele me mandava o jornal de Tarrant, e vi o anncio de seu casamento com Hal. Quando voltei da guerra, ele passou a me pressionar para me casar.  Fitou-a pesaroso.  Mas eu s queria voc, e voc j estava casada.
	Lamento tanto. Voc deve ter sofrido muito.
	Sim, mas, se soubesse que estava grvida de um filho meu e casada com Hal, teria ficado arrasado. Portanto, acho que foi melhor assim.
	Por que acha que ele guardou as cartas que lhe enviei?  indagou Mary Jane.  Devia saber que voc as encontraria um dia e ficaria furioso com ele.
	No sei. Talvez considerasse us-las para chantagear voc e for-la a ir embora. Se tivesse sido mais especfica na carta, dizendo que estava grvida, ele provavelmente teria usado isso contra voc.
Mary Jane deixou carem os ombros.
	Que homem triste e amargo.  irnico que eu s sinta pena dele. Nunca o odiei como ele odiou minha famlia.
	Isso  bom, no acha?  opinou Garrett.  Ou voc e sua famlia sentiriam a mesma amargura que o consumiu.
Mary Jane estremeceu. Era impensvel. Garrett a segurou pelos ombros.
	E agora? Para onde vamos daqui?
	Agora?  Reanimada, Mary Jane conseguiu rir.  Agora, vamos ser avs!
Garrett a abraou e cobriu de beijos.
	Sim, vamos ser avs, e juntos!  vido, beijava-a nos olhos, na boca, no rosto.  Bolas, ainda somos jovens. Podemos fazer qualquer coisa. Esperei uma vida por voc, MarJay. Eu te amo. Por favor, diga que vai se casar comigo.
Ela sentiu a alegria invadindo seu corpo.
	Sim, Garrett. Parte de mim sempre o amou, mesmo quando estava assustada e zangada por voc ter me abandonado to friamente. Eu me casarei com voc, sim.  Risonha, ps-se na ponta dos ps e o estreitou com fora.  Afinal, j perdemos muito tempo, mas entramos num novo milnio. O que seria melhor do que viv-lo juntos?
Garrett a conduziu ao sof e procurou algo no bolso do casaco. Era uma caixinha de jia aveludada.
	Agora, vai me deixar colocar isto lio seu dedo?
Mary Jane ergueu a mo esquerda.
	Por favor. Mas ter de se casar comigo logo, Garrett Blackhawk. Esta av no vai ficar mais jovem.
Ele colocou o anel e a puxou para o colo.
	Vovozinha, vovozinha, que olhos grandes voc tem!
Ela bateu os clios.
	So para melhor flertar com voc, meu querido.
Ele a fez pousar as mos em seus ombros.
	E que lbios sensuais voc tem...
Ela sorriu e o beijou no queixo.
	So para melhor beij-lo, meu querido.
Garrett sorriu malicioso enquanto se deitava no sof levando-a junto. Apalpou-lhe as ndegas.
	E que corpo voc tem...
Mary Jane soergueu-se para beij-lo novamente.
	No se fazem mais vovozinhas como antigamente, meu querido.
No dia de Ano-Novo, Mary Jane e Garrett se casaram na sede da Fazenda Blackhawk na presena de familiares e amigos. Mary Jane desceu os degraus da varanda conduzida pelo irmo, David, que viera de Denver. Ela contemplou a famlia... Becca com Clay, Jimmy e Christina... Brittnie sorria com Jared a seu lado... Shannon com Luke atrs, abraando-a protetor. Suas vidas no seriam fceis, mas seriam compensadoras. Mary Jane agradeceu silenciosamente a Hal Kelleher por lhe ter dado aquelas filhas maravilhosas.
Ento, fitou o semblante bonito e os olhos azuis brilhantes de Garrett. Amava-o, e teriam uma vida maravilhosa juntos.

FIM

